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quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Discipulado Não é Para Voluntários

Conforme ficou evidente nos textos anteriores, vínhamos falando sobre um tema recorrente entre os cristãos: o discipulado. Embora possamos encontrar diversas maneiras de interpretar e definir o discipulado, fato é que não há como entender melhor seu significado do que quando decidimos olhar para Jesus. Refletindo a respeito da passagem bíblica de Lucas 9.57-62, o teólogo Dietrich Bonhoeffer nos auxilia na identificação de três candidatos ao discipulado que encontravam-se entre a multidão que costumava juntar-se em torno de Jesus. Vamos analisar com mais detalhes estes três perfis que o texto nos apresenta!

O primeiro deles poderíamos caracterizar como o voluntário. Este primeiro homem, conforme nos relata o texto, chega a Jesus e diz: “Eu te seguirei por onde quer que fores” (Lucas 9.57). O destaque, aqui, está exatamente no fato de que não houve um chamado aparente de Jesus. Aquele homem surge como alguém que se voluntaria a seguir Jesus. Temos, portanto, um primeiro perfil de cristãos que confundem o discipulado com algo cujo a iniciativa pode partir de si mesmo. É o voluntário. Aquele que se prontifica.

Seria injusto se eu agora quisesse julgar as motivações daquele homem. Pode ser que sua motivação fosse até sincera. De tudo que viu e ouviu, seguir esse Jesus poderia ser uma aventura interessante. Sua causa é nobre e fazer parte disso certamente é algo bom. Quem não gostaria de ser identificado como alguém que se colocou 'do lado do bem'!?

Você que é líder ou pastor numa igreja local, imagine sua reação se algum estranho chegasse e manifestasse o desejo de integrar a sua comunidade. Certamente você ficaria feliz e faria de tudo para receber bem essa pessoa. Faria de tudo para incluir ela e fazer com que se sentisse bem. Quem imaginaria uma repreensão!? Alguém pensaria em dizer algo que pudesse afugentar essa pessoa? Você pensaria em criar alguma dificuldade para este homem que se prontifica tão diretamente?

A resposta de Jesus parece indicar que ele não estava assim tão interessado em voluntários dispostos a estarem com ele em alguns bons momentos: “As raposas têm suas tocas e as aves do céu têm seus ninhos, mas o Filho do homem não tem onde repousar a cabeça” (Lucas 9.58). Jesus pega pesado com o voluntarismo: Você tem certeza daquilo que está dizendo? Jesus dá a real! Há momentos que seguir a Cristo implicará em viver de forma mais desconfortável à vida de muitos animais. Pouco antes, Jesus fora impedido de atravessar a região de Samaria. Ele já fora expulso da Sinagoga. Além de críticas, rótulos e ameaças verbais, Jesus logo experimentaria a mais dolorosa violência em seu próprio corpo!

Em tempos de bonança pode ser muito fácil seguir Jesus, figurar entre aqueles que se declaram cristãos, desfrutar de certo status, passar um ar de piedade e compromisso. Jesus, no entanto, busca discípulos legítimos, dispostos a uma caminhada de risco. Mais adiante, no capítulo 14 de Lucas (v. 25ss.) Jesus mais uma vez chamará a atenção para que se calcule bem o preço do discipulado. Jesus espera por um compromisso radical! Discipulado não é voluntarismo. Discipulado não começa com um chamado a si mesmo. Discipulado é sempre uma resposta ao chamado de Jesus Cristo.

O voluntário até pode ser muito sincero em seu impulso que o leva a se dispor. Mas, Jesus quer uma resposta consciente. Não podemos nos deixar levar pelo mero entusiasmo, pela moda, porque se dizer gospel ou cristão agora é pop, porque meus amigos fizeram, porque tá todo mundo seguindo ou coisas assim! Não basta ficar impressionado por Jesus! Segui-lo implica em renúncia e abnegação. Se segui-lo, ele vai podar algumas coisas na sua vida! Ah, você quer? Tem certeza? “As raposas têm suas tocas e as aves do céu têm seus ninhos, mas o Filho do homem não tem onde repousar a cabeça” Esta foi a resposta de Jesus ao voluntário. Andar com Jesus trará consequências, as mais diversas!

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Como o Mestre...

Finalizei meu relato anterior, do episódio com as crianças, com a pergunta: "Que tipo de Deus as pessoas descobririam se resolvessem me seguir?"

Gostaria de levar essa reflexão um pouco mais adiante. Talvez o pequeno Henrique, na sua imaginação infantil, estivesse pensando que aqueles dois missionários andarilhos chegariam em alguma casa, em algum templo e lá se encontrariam com o seu Deus, um Deus que poderíamos identificar, ver, tocar, enfim...

No entanto, o Henrique sabia também que, embora os pais dele sempre lhe falassem de Deus, contassem histórias bíblicas, os levassem a igreja, não havia um Deus tão facilmente visível e palpável para ser identificado. Ou será que essa é uma interpretação da cabeça de um adulto condicionado e limitado, incapaz de perceber o quão à frente poderia estar aquela cabecinha de três anos de idade?

Talvez, a criança estivesse me ensinando algo que eu já não conseguia perceber, acostumado que estava, com um Deus conceitual e distante!? Inevitavelmente, episódios assim nos levam à reflexão. Um seguidor de Jesus é um discípulo de Jesus. Você crê em Deus? Você crê que Jesus Cristo é o filho de Deus, o salvador do mundo, o Deus encarnado que deu a sua vida para que você pudesse ser redimido, perdoado, salvo? Você tem convicção de que Jesus Cristo é seu Salvador e seu Senhor? Você se dispôs a seguir este Jesus? Então, você é um discípulo de Jesus.

Sendo eu um discípulo de Jesus, a minha vida deveria refletir o Deus no qual confesso crer. Mas, se alguém me seguir, se as pessoas começarem a observar a minha vida, que Deus elas descobrirão? E se de repente uma criança resolver levar a sério essa ideia diante da sua curiosidade pelo Deus no qual eu confesso a minha fé? Se ela me seguisse, qual Deus descobriria?

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Qual é a Sua Desculpa?

Os textos anteriores nos conduziram ao tema do discipulado. Sem dúvida um assunto recorrente na igreja. Um texto da Bíblia sobre o qual venho refletindo recentemente é Lucas 9. 57-62.

Quando andavam pelo caminho, um homem lhe disse: "Eu te seguirei por onde quer que fores". Jesus respondeu: "As raposas têm suas tocas e as aves do céu têm seus ninhos, mas o Filho do homem não tem onde repousar a cabeça". A outro disse: "Siga-me". Mas o homem respondeu: "Senhor, deixa-me ir primeiro sepultar meu pai". Jesus lhe disse: "Deixe que os mortos sepultem os seus próprios mortos; você, porém, vá e proclame o Reino de Deus". Ainda outro disse: "Vou seguir-te, Senhor, mas deixa-me primeiro voltar e me despedir da minha família". Jesus respondeu: "Ninguém que põe a mão no arado e olha para trás é apto para o Reino de Deus". 

Jesus está, como de costume, envolvido pela multidão. Acontece, então, algumas conversas de alguns destes personagens com Jesus. Esta conversa acontece ao longo do caminho. Jesus havia manifestado que seu destino nessa caminhada era Jerusalém (Lc 9.51). Um imbróglio envolvendo os samaritanos fez com que se dirigissem a outro povoado. Ao longo desse caminho é que Jesus é interpelado por três candidatos ao discipulado.

O que chama a atenção nesta passagem é que todos os três homens estavam entre a multidão em torno de Jesus. E, em algum momento, todos se viram face a face com Jesus Cristo. Até aquele momento, talvez, tivessem ouvido falar de Jesus..., quem sabe o tivessem visto de longe...! Pode ser que até já tivessem conversado com alguém outro mais chegado de Jesus! Eles, certamente, já nutriam admiração por aquele jovem galileu! No entanto, chegou o momento de um confronto para valer! Aquele momento de deixar a multidão e tornar-se um discípulo de verdade.

Para o teólogo e mártir luterano Dietrich Bonhoeffer, “cristianismo sem discipulado é sempre cristianismo sem Jesus Cristo”. Portanto, o discipulado implica num encontro e um confronto com a pessoa de Jesus. As consequências desse encontro são inevitáveis!

E Se Seguissem Você

Por volta de 2014, quando meus filhos tinham 3 e 6 anos de idade, já residindo em Curitiba, eu saía com eles no portão e, chegando à rua, algo chamou a atenção das crianças. Duas pessoas estavam passando. Estas pessoas trajavam roupas idênticas e, até mesmo a mochila que carregavam era semelhante. Ambas também ostentavam um crachá no peito.

Tratava-se de uma dupla de missionários da Igreja dos Santos dos últimos Dias (Mórmons), comum na maioria das cidades brasileiras. Por alguma razão, eles despertaram a curiosidade, especialmente da Sophia. Ela perguntou o que eram aquelas pessoas. Eu, então, tentei explicar para ela. Disse que eram pessoas que saíam por aí falando do Deus no qual eles acreditam.

Ingenuamente imaginei que uma criança, naquela idade, talvez ficaria satisfeita com esse tipo de resposta. Afinal, desde bebês, elas convivem com pais que confessam a Deus, possuem livros e Bíblias em casa, contam histórias sobre Deus, frequentam e as levam a igreja e etc.. Mas, a Sophia não se deu por satisfeita. Perguntou se o Deus daquelas pessoas era o mesmo Deus que a gente acredita. Eu comecei a perceber que estava numa enrascada.

Procurei responder com algo do tipo: bem, eles não acreditam exatamente como a gente, há algumas diferenças... E, antes mesmo que eu pudesse continuar ela interrompe: o deus deles é uma estátua?

Lá estava eu, me contorcendo para tentar explicar: não exatamente, Sophia... Foi então que o Henrique, até aquele momento calado, mas não desligado da conversa, percebendo meu malabarismo e toda a dificuldades para oferecer uma resposta satisfatória, interrompeu abruptamente com uma sugestão brilhante: Pai, por que a gente não segue eles, daí a gente vai ver o deus deles!?

Eu já contei esse episódio algumas vezes e quase sempre fica como mais uma dessas curiosidades engraçadas da relação pais e filhos, especialmente filhos pequenos que vivem a aventura de descobrir o mundo. Como cristão, no entanto, eu jamais pude evitar de lembrar repetidas vezes da palavra de Jesus a respeito das crianças. Uma interpretação possível é que Jesus lembra aos adultos de que, além de ensinarmos, devemos prestar atenção a elas, as crianças, pois também tem muito a nos ensinar, aos adultos.

Hoje, já passados 4 anos daquele episódio, eu costumo me lembrar especialmente da sugestão do Henrique, então uma criança com pouco mais de 3 anos de idade: “Pai, por que a gente não segue eles, daí a gente vai ver o deus deles!?”

Eu não explorei com o Henrique, na época, o que exatamente ele tinha em mente ao propor aquilo. Talvez tenhamos dado algumas risadas e seguimos nosso caminho. Os dois estavam mais interessados no parquinho para onde nos dirigíamos. A imaginação de uma criança é algo realmente incrível! Mas, hoje, quando me pego refletindo sobre algumas coisas das Escrituras, especialmente sobre o discipulado, uma pergunta me assalta: Que tipo de Deus as pessoas descobririam se resolvessem me seguir?

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

A Missão de Deus e Uma Hermenêutica Missional

Um dos livros mais importantes sobre o tema da missão publicados nos últimos anos é, sem dúvida, A Missão de Deus, do autor Christopher J. H. Wright. Para aqueles que vem procurando uma maneira de compreender a missionalidade da igreja, certamente esta obra servirá de grande proveito.

O objetivo de Wright, neste livro, consiste em “desenvolver uma abordagem da interpretação bíblica que veja a missão de Deus (e a participação do povo de Deus nela) como uma estrutura na qual podemos ler a Bíblia toda”. Portanto, Wright inicia propondo o que ele chama de uma hermenêutica missional. Mais do que usar a bíblia para buscar nela fragmentos que possam motivar e fundamentar a missão da igreja, ele propõe que a própria bíblia deve ser compreendida à luz da missão de Deus. Logo, Wright destaca que é necessário partir de uma concepção de missão que seja mais ampla do que meramente aquela que a compreende como envio e atividades humanas.

O termo missional vem se tornando popular no meio eclesiástico brasileiro nos últimos anos. Para o autor do A Missão de Deus, "missional seria um adjetivo que denota, “simplesmente, alguma coisa relacionada à missão ou caracterizada por ela, ou que tem qualidades, atributos ou dinâmicas da missão”. A bíblia, assim, é apresentada não tanto como fundamento da missão, mas, sim, um produto da missão de Deus.

O livro de Wright, então, a partir desta perspectiva missional da bíblia, aborda temas como: O propósito para o qual a bíblia existe; O Deus que a bíblia retrata para nós; O povo cujas identidade e missão a bíblia nos convida a compartilhar; A história que a bíblia conta sobre esse Deus e esse povo (o mundo inteiro e o futuro).

Ainda em defesa de uma hermenêutica missional, com base em Lucas 24.45, Wright defende que “o próprio Jesus forneceu a coerência hermenêutica dentro da qual todos os discípulos devem ler” os textos bíblicos do AT, “isto é, à luz da história que conduz para Cristo (leitura messiânica) e da história que prossegue a partir de Cristo (leitura missional)”. Portanto, quando homens e mulheres se deparam com o Deus missionário da Bíblia e se compreendem como povo da missão de Deus, o resultado é uma igreja missional. Deus, e não a igreja, é o tema e a fonte da missão.

As prioridades da missão devem estar centradas em Deus. Uma hermenêutica missional seria, portanto, aquela que compreende “o cânon inteiro das Escrituras” como “um fenômeno missional, no sentido de que é testemunha do movimento desse Deus que se doa à própria criação, bem como de nós seres humanos criados à imagem de Deus, mas errantes e iníquos”. A Bíblia é o resultado da missão suprema de Deus. A existência da Bíblia é uma evidência do amor de Deus por sua criação. “O próprio texto bíblico é resultado da missão em ação”, conclui Wright. Os textos bíblicos são documentos forjados enquanto a missão de Deus acontecia.

Poderíamos expor várias citações interessantes que o livro apresenta, tais como: “a nossa hermenêutica missional deriva da pressuposição de que a Bíblia como um todo conta a história da missão de Deus, por meio do povo de Deus, em seu envolvimento com o mundo de Deus, em prol de toda a criação de Deus”.

Há um Deus a quem podemos conhecer e a quem adoramos. Há uma história da qual fazemos parte. Sabemos a que povo nós pertencemos. Como devemos viver? Qual é a nossa missão? A missão não é uma agência humana, mas, propósito supremo de Deus; Mais do que empreendimentos humanos, missão ou missões tem a ver com o propósito de Deus na história; É preciso superar a visão de mundo antropocêntrica por uma cosmovisão teocêntrica. “A salvação pertence ao nosso Deus, que se assenta no trono, e ao Cordeiro” (Apocalipse 7.10).

Fica, assim o desafio por uma perspectiva que desafia velhos paradigmas: “...não é que Deus tenha sim uma missão para a sua igreja no mundo, mas que Deus tenha uma igreja para a sua missão no mundo. A missão não foi criada para a igreja; a igreja foi criada para a missão - a missão de Deus”.

Deus, de forma extraordinária, nos envolve em sua missão.

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Graça Barata x Graça Preciosa

No dia 4 de fevereiro de 1906, em Breslau na Alemanha, nasceu uma criança que seria batizada com o nome de Dietrich Bonhoeffer. Teve uma irmã gêmea, Sabine e, ainda, outros numa casa com oito filhos.  Aquele menino cresceu, formando-se em teologia em Berlim, em 1927. Logo descobriria que as coisas se tornariam difíceis em seu país.

Dietrich tornou-se um pastor luterano e professor universitário. Doutorou-se em teologia pela Universidade de Berlim. Quando a ameça nazista já começava a ser identificada por muitos como uma ameça, Bonhoeffer surgiu como oponente ao sistema de Hitler. Foi membro fundador da Igreja Confessante, contrária à política nazista.

Junto com outros teólogos, Bonhoeffer foi um dos mentores e signatários da Declaração de Barmen, uma confissão contendo seis teses contra a ideologia nazista. Bonhoeffer foi preso em Abril de 1943 por ajudar judeus a fugirem para a Suíça. Em 9 de Abril de 1945, três semanas antes que as tropas aliadas libertassem o campo, foi enforcado, junto com um irmão e dois cunhados.

As diversas publicações deixadas por Bonhoeffer podem ser hoje encontradas e lidas também em português. Num destes livros, cujo título traduzido é "Discipulado", este pastor tematiza, na introdução, a importância de discernir entre a graça preciosa e a graça barata. Assim, a graça barata seria a compreensão da justificação do pecado. Já a graça preciosa seria a compreensão da justificação do pecador. Em suas palavras, “a graça barata é a graça que nós dispensamos a nós próprios”. Sem dúvida um entendimento que a igreja de nossos dias ganharia em resgatar e compreender.

Como motivação para aprofundamento e estudo da obra de Dietrich Bonhoeffer, deixo mais uma citação de sua pena:

A graça barata é a pregação do perdão sem arrependimento, é o batismo sem a disciplina comunitária, é a Ceia do Senhor sem confissão dos pecados, é a absolvição sem confissão pessoal. A graça barata é a graça sem discipulado, a graça sem a cruz, a graça sem Jesus Cristo vivo, encarnado

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Uma Velha Canção no Rádio

Duas coisas parecem impregnar-se de maneira mais forte em minha memória. Não sei se continuará sendo assim. No entanto, quando lembro o passado, dentre as coisas que logo me vem à mente estão os cheiros e a música. Especialmente com relação à música é curioso, pois, não venho de uma família de músicos, nem tínhamos qualquer instrumento musical em casa. Sequer havia grande coisa em termos de equipamentos de som. Eu mesmo sou péssimo quando se trata de tocar algum instrumento ou de cantar. Sou bem desafinado.

Não sei exatamente por qual motivo comecei a tentar me lembrar qual seria música a vir a minha
Um dos antigos rádios era semelhante a este
mente numa idade a mais remota possível. Como nasci no ano de 1976 imagino que as primeiras lembranças sejam ainda do final daquela década de 70. Confesso que parece meio esquisito descobrir que poderia ser capaz de me lembrar de algo ainda daquela época. Especialmente porque grande parte de minhas lembranças mais presentes são de 1982 pra cá. Lembro, por exemplo, de músicas sertanejas e do Roberto Carlos no antigo rádio de pilhas que tínhamos em casa. Eu ainda não conhecia a televisão. Ficava, então, imaginando como será que os cantores ficavam lá "do outro lado" cantando para que esse som chegasse por meio do rádio até a nossa casa.

Minhas reminiscências conseguiram me trazer parte de uma letra que joguei no Google: "pipa voadora pipa a voar". Esta é uma música de que me lembro ouvir no rádio quando ainda era bem pequeno, lá no interior do estado do Espírito Santo. Com toda a tecnologia disponível hoje, é claro que depois de poucos minutos, aqui estou eu podendo ouvir a "Melô da Pipa" e até mesmo conhecer um pouco sobre "o conjunto" (era assim que se dizia das bandas na época) Super Bacana, sucesso naquela longínqua década de 1970. Aquela reminiscência, que me trouxe apenas três ou quatro palavras da canção, pode agora ser preenchida com a letra completa.

Outro modelo semelhante às minhas lembranças
Não tenho nenhum interesse em resgatar ou divulgar a música e sequer o conjunto. Até porque hoje, como adulto, percebe-se que já naquela época as letras podiam conter sentidos que passavam completamente despercebidos para as crianças. A melodia e a referência, na inocência dos pequenos, a um simples brinquedo, levou a música a fazer sucesso entre a criançada da época. São apenas lembranças. Descobri hoje que a tal Melô da Pipa foi realmente um grande sucesso no ano de 1978. Logo, devo localizar neste período minhas primeiras lembranças da infância. Eu tinha, então, entre dois e três anos de idade.

Se você me perguntar se consigo lembrar outra música que seria mais ou menos da mesma época eu imediatamente diria que sim, é " O Coisinha tão bonitinha do Pai", de Beth Carvalho. Certamente muito cantarolada por muitos pais para suas filhinhas na época. Acho que minha irmã se lembra desta também, ela nasceu em 1977 e a música estourava em 1979. Esta, sim, uma canção composta por Jorge Aragão para embalar o sono de suas filhas Vânia e Tânia.

Não guardamos os antigos modelos de rádio que tínhamos. Minhas lembranças preservam imagens semelhantes aos modelos que ilustram este post. Hoje tenho dois filhos e se eles também tiverem uma memória musical, certamente, o repertório será maior do que o meu.

quarta-feira, 25 de julho de 2018

Como Zaqueu...

É conhecida a história de um desonesto cobrador de impostos, que não gozava de boa fama devido às suas práticas ilícitas. Em Jericó todos sabiam quem era e como abusava de suas funções, extorquindo as pessoas, tirando delas mais do que era devido. Um ‘publicano’ era uma espécie de funcionário público, que coletava impostos e os repassava ao governo. Esses publicanos, geralmente, eram desonestos, tanto com o povo, de quem recolhiam os impostos, fazendo cobranças ilegais, quanto com o governo, para quem apresentava relatórios falsificados. Tudo com o objetivo de enriquecer rapidamente.

Certo dia, Jericó entrou no itinerário de Jesus de Nazaré. O Evangelho de Lucas nos relata que Zaqueu, aquele publicano de baixa estatura física, também ficou muito curioso e desejava ver Jesus. Qual não deve ter sido o susto quando foi surpreendido, já lá em cima da árvore, com as palavras do mestre: “Zaqueu, desça depressa. Quero ficar em sua casa hoje” (Lucas 19. 5). A reação do povo apenas reforça que aquele cobrador de impostos não gozava de simpatia nas redondezas (Lc 19. 7).

Jesus passou algum tempo na casa de Zaqueu, alimentou-se, desfrutou da boa comida da mesa de Zaqueu. Quando finalmente voltou a aparecer em público, Jesus tinha um brilho no olhar. Demonstrava entusiasmo. Logo saiu a compartilhar com todos o quanto suas esperanças se renovaram com aquele maravilhoso encontro. Jesus dizia estar animado para compartilhar daquela esperança de Zaqueu com toda a palestina. Empolgado com o evangelho de Zaqueu, Jesus seguiu o seu caminho arregimentando discípulos pela causa libertadora que tiraria todos do jugo do Império
Romano.

O que!? Qual é o problema, leitor? Você tem a impressão de que não foi assim que essa história de Jesus com Zaqueu terminou? Sim, você está certo. Leia Lucas 19. 1-10.

* O texto acima faz alusão e é inspirado num episódio ocorrido no dia 23 de julho de 2018. Um influente pastor luterano, da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, saiu entusiasmado da cela do ex-presidente Lula. O vídeo foi amplamente compartilhado e gerou uma série de manifestações contrárias e favoráveis nas redes sociais e outros fóruns de discussões.

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