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sexta-feira, 28 de julho de 2017

Criador e Redentor

[...] nele foram criadas todas as coisas nos céus e na terra (v.16)

Não somente o nosso lugar é aparentemente pequeno e insignificante diante da grandeza da criação, mas, também nossa rebeldia e pecado poderiam nos levar ao questionamento: [...] que é o homem, para que com ele te importes? E o filho do homem, para que com ele te preocupes? (Sl 8.4). Os primeiros capítulos do livro de Gênesis revelam mais claramente aquilo que o próprio salmista constata: fomos criados para ocupar o lugar entre Deus e a sua criação. Nosso lugar é aquele que se submete ao Criador e, ao mesmo tempo, exerce domínio sobre toda a criação desse Deus (Sl 8.5-8 e Gn 1.26-30). Apesar desse lugar de honra, nós nos rebelamos insatisfeitos.

O fato de buscarmos trilhar um caminho próprio, independentemente de Deus, no entanto, não foi razão suficiente para fazer o Criador desistir de nós. O Deus Criador de todas as coisas, rei em majestade, o único digno de toda honra e louvor, poderoso que está acima de toda realidade que podemos perscrutar, não desiste de sua criação: ele nos resgatou do domínio das trevas e nos transportou para o Reino do seu Filho amado, em quem temos a redenção, a saber, o perdão dos pecados (Cl 1.13-14).

As Escrituras revelam um Deus Criador. Revelam uma humanidade caída em pecado, em oposição a ele. Revelam um Deus misericordioso e compassivo. A narrativa cristã testemunha um Deus Criador que não desiste de sua criação. Deus se revela um autor cuja obra de arte ganha vida. Até mesmo nossos garranchos desajeitados acabam fazendo sentido dentro de um espectro visto por quem os contempla a partir da eternidade. Somos criação de um Deus que se importa e se preocupa. Tanto que enviou seu filho, para por meio dele reconciliar consigo todas as coisas [...]. (Cl 1.20).

A Criação Revela a Glória de Deus!

[...] Que é o homem, para que com ele te importes [...]? (Salmo 8. 4)

Como tudo começou? De onde veio este mundo em que vivemos? De onde surgiram as plantas, os animais e os seres humanos? Porque existe algo em vez do nada?

Certamente você já deve ter escutado inúmeras tentativas de respostas para tais questões. Muitos esforços e investimentos financeiros na ciência e na tecnologia são justificados pela busca de respostas a respeito das origens do Universo.

A maioria das dúvidas em torno das origens do Universo e do surgimento da vida, no entanto, giram em torno de “como” as coisas acontecem. Ignoramos, assim que saber como um aparelho de celular é fabricado ainda não diz muita coisa a respeito de quem o produziu e nem mesmo de onde vieram as peças, o material, as composições utilizadas para a sua fabricação. O fato é que, praticamente todos nós, utilizamos aparelhos sofisticados, com inúmeros recursos e, ao mesmo tempo, poucos entre nós saberiam descrever como é possível fazer com que a voz chegue até outra pessoa que está a muitos quilômetros de distância por meio de um pequeno aparelho.

Temos a consciência de que há muito mais para descobrir do que é possível dar conta num curto espaço de tempo que dura a vida sobre a terra. Isso, no entanto, nunca nos impediu de buscar, descobrir, investigar. Queremos saber. Vivemos em busca de respostas. Essa natureza curiosa, inquieta e carente de sentido nos leva a querer organizar a realidade de um modo minimamente coerente, estável e ordenado. As coisas precisam fazer algum sentido para nós. No desenrolar da história, diversas narrativas foram aparecendo. Todas procurando dar conta da aventura humana neste mundo, com suas tramas, conquistas e derrotas, alegrias e tristezas, ganhos e perdas...

Obrigado, Senhor, porque és um criador que se revela. A ti, Senhor, rendo graças, toda a glória pertence a ti! Amém.

Deus Criou


No princípio Deus criou os céus e a terra. (Gênesis 1. 1) 
Ao meditar novamente no Salmo 8 saltou aos olhos um fato que nem sempre percebemos. O reconhecimento do salmista de que há um agente que está lá antes de todas as coisas. Céus e terra são obra dos dedos de Deus. Foi ele quem criou os seres humanos, também todos os rebanhos, manadas, aves e peixes. Portanto, não poderia haver frase mais simples, direta e verdadeira para iniciar as Sagradas Escrituras: no princípio Deus criou os céus e a terra (Gn 1.1). Deus é o grande autor que dá origem a todas as coisas! 


A longa e rica tradição da igreja cristã sempre de novo foi alimentada pelas palavras de abertura da Bíblia. Credos, Confissões e Catecismos trataram de enfatizar que tudo deve a sua origem a Deus. É praticamente impossível permanecer indiferente à beleza da criação de Deus.

Assim como o salmista, também muitos outros sentiram-se instigados ao longo da história a conhecer mais deste autor extraordinário. Apreciar a criação de Deus desperta em nós a imaginação e desencadeia uma série de perguntas que inevitavelmente passam pela busca por sentido: que é o homem, para que com ele te importes? E o filho do homem, para que com ele te preocupes? (Sl 8.4).

O desafio parece estar em começar pela pergunta correta. Só é possível nos conhecermos melhor e obtermos as melhores respostas se começarmos pela pergunta chave inicial: quem é o autor de todas as coisas? Não é incrível como a Bíblia traz esta resposta já em sua primeira linha!? Note que ao continuar lendo as Escrituras você jamais encontrará nenhum esforço de argumentação ou embates para provar que Deus existe. Para os autores bíblicos, simplesmente é assim. Nela tudo é relatado na perspectiva de que há um Deus.

Senhor, muito obrigado por te importares tanto! Amém.

sábado, 24 de junho de 2017

Uma Grande Obra - Um Grande Autor

...contemplo os teus céus, obra dos teus dedos, a lua e as estrelas que ali firmaste... (Salmo 8.3)

Ao contemplarmos o mar e suas ondas a acariciar a praia, sua água refletindo o sol, podemos viajar na imaginação tentando vislumbrar tudo o mais que se esconde por debaixo daquele mundo de mistérios. Sabemos que a beleza estonteante que está diante de nossos olhos esconde ainda uma infinidade de vidas, cores, movimentos. Assim, todo o Universo criado se revela diante de nós e nossa imaginação nos leva numa viagem de perguntas e admiração.




Resultado de imagem para paisagem deslumbranteSe você já visitou lugares exuberantes de belezas naturais, sejam estes mais ou menos famosos, talvez entenda melhor o êxtase do salmista: Senhor, Senhor nosso, como é majestoso o teu nome em toda a terra!

Sempre que nos encontramos diante de algo belo e encantador, a obra de um verdadeiro artista, é inevitável a curiosidade a respeito do autor.Desde a obra de arte mais esplêndida até a máquina mais engenhosa já inventada, ninguém ousaria arriscar defender a ideia de que surgiram ao acaso. Diante de todas as maravilhas da natureza, de todo um Universo e suas possibilidades, podemos também compartilhar do louvor do salmista: Senhor, Senhor nosso, como é majestoso o teu nome em toda a terra! Tu, cuja glória é cantada nos céus.

A fé num Deus criador nos ajuda a compreender todas as coisas pela perspectiva correta. Sabemos a quem dar graças por todas as coisas. Mesmo diante do mistério, nossa imaginação nos conduz àquele que criou todas as coisas. E, quando faltam respostas, podemos descansar naquele que nos fez apenas um pouco menor do que os seres celestiais e nos coroou de glória e de honra.

Senhor, obrigado porque posso saber que estás aí. Obrigado por te expressares de tantas formas para que possamos saber que estás aí, o tempo todo. Amém.

sexta-feira, 8 de julho de 2016

O Cristão e as Ideologias

Ninguém pode servir a dois senhores; pois odiará a um e amará o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro” (Mateus 6:24).

Como cristãos, sabemos que Deus é o criador de todas as coisas e que, por isso, podemos avaliar todas as coisas e reconhecer a verdade ali onde ela estiver. No caso das ideologias, todas elas, por partirem de algum fundamento isolado da criação de Deus, podem refletir alguma razão ou verdade. 

A tradição cristã costuma revelar três formas distintas de relação com a cultura: 1) Contra a cultura; 2) Amigo da cultura; 3) Crítico à cultura.

O autor e cineasta Brian Godawa[1] chama a postura contrária a cultura de “anorexia cultural”, aquela postura de considerar tudo que não é “gospel” ou “evangélico” de mundano, logo, a pessoa não vê nenhum filme, não ouve nenhuma música, nada que seja “do mundo”. Com isso, não sabe aproveitar as coisas boas da vida, não se diverte, pois tudo o que é “do mundo” deve ser evitado. Isola-se num gueto.

Por outro lado, há o “glutão cultural” que é como Godawa chama o amigo da cultura. É aquele que cai de cabeça, não quer nem saber. Desliga todo e qualquer tipo de senso crítico. Vai consumindo música, filmes, espetáculos, tudo sem o mínimo discernimento. Ele é do tipo que quando alguém questiona, logo responde, “é só por lazer”, ou, “você leva tudo a sério demais”. São pessoas que ignoram que os artefatos culturais não gozam de neutralidade, que não servem apenas para entreter, mas, transmitem uma mensagem que, no final das contas, tem o objetivo de influenciar você.

Ambas as posturas são problemáticas. Como cristãos, somos chamados a examinar todas as coisas e reter o que é bom[2]. A relação que se espera de um cristão com a cultura a sua volta não é de simplesmente sair consumindo tudo acriticamente e, nem tampouco, evitar tudo ou até mesmo condenar todas as coisas como se fossem pecaminosas somente por não serem produção vinda de cristãos. Este é um princípio que deveria ser aplicado também ao lidarmos com as ideologias políticas.

Muitas pessoas cristãs acreditam que sua fé nada tem a ver com política. Devemos superar tal equívoco, pois, a postura contra a cultura reflete o falso pressuposto de que os reinos deste mundo pertencem a satanás[3]. Com isso, a tendência é o isolamento e a incapacidade de interagir e reconhecer que possa existir algo bom na cultura e nas ideologias e que, por isso, merecem reconhecimento e apoio.

Por outro lado, há o risco de um alinhamento político feito de maneira inadvertida. Essa tentativa de combinar a fé cristã com alguma ideologia sem uma análise crítica pode gerar sérios problemas e levar, até mesmo, a verdadeiras tiranias. Não deveríamos tomar as ideologias como se fossem simplesmente discursos neutros, algo que simplesmente se pode tomar sob o argumento de que “o que vale é a intenção”.

Uma primeira questão e que é chave para os cristãos que desejam nutrir uma correta relação com a cultura consiste em identificar as raízes religiosas das ideologias. Em outras palavras, é necessário identificar a cosmovisão por trás da cultura e das ideologias. Trata-se do que o filósofo David Koyzis chama de raízes espirituais das ideologias[4]. Somente ao atentarmos para isso seremos capazes de perceber que há uma verdadeira incompatibilidade entre os pressupostos religiosos das ideologias e os fundamentos do cristianismo bíblico.

Quando pensamos em ideologias políticas nos lembramos logo de governos, partidos políticos e sistemas jurídicos. Há, no entanto, uma diferença entre ideologias como o liberalismo e o socialismo, para as instituições como o governo e o sistema jurídico. Tal diferença consiste em dizer que tais instituições podem ser utilizadas para bem ou para mal, dependendo de qual direção a ideologia por trás daqueles que administram estas instituições desejam imprimir. Um socialista irá forçar o governo e criar uma proposta partidária diferente de alguém identificado com o liberalismo, por exemplo. A ideologia, assim, acaba sendo um meio para se alcançar determinado fim. Ao adotar inadvertidamente uma ideologia como meio para fins justificáveis, por mais nobres que estes fins pareçam à causa cristã, o que há, de fato, é idolatria.

Enfim, diante da complexidade da realidade à nossa volta, qual é a postura que os cristãos deveriam assumir? Já dissemos que é importante analisar tudo e reter o que é bom. Nem uma postura totalmente contrária e tampouco acrítica é desejável. Não podemos, no entanto, interagir e emitir juízos sobre qualquer ideologia sem conhece-las e identificar aquilo que reconhecem corretamente. Se o liberalismo defende os direitos humanos, nisso estão corretos. Se o conservadorismo defende a importância da tradição e da continuidade histórica, nisso eles acertam. Se os nacionalistas defendem a solidariedade comunitária entre aqueles que compartilham a mesma cidadania, ponto para eles. Se os socialistas pregam a equidade econômica, merecem todo o reconhecimento neste aspecto. O problema reside em tornar tais aspectos da realidade verdadeiros absolutos sobre os quais sustentam toda a ideologia. A deificação de um destes aspectos da realidade criada por Deus torna-se em idolatria que gera efeitos nefastos e, como todo ídolo, sacrifícios em nome da causa. Os regimes totalitários estão aí para comprovar isto. Cada ideologia, assim, produzirá seus próprios efeitos colaterais quando ignora a complexidade de uma realidade bem mais ampla.

Como cristãos, enfim, reconhecemos que só há um absoluto e este é Deus. Todas as coisas foram por ele criadas e são, portanto, relativas. Não há nada que tomemos desta criação para promover como princípio absoluto que não irá chocar-se com a verdade bíblico cristã, pois constituir-se-á num ídolo concorrendo com o verdadeiro e único Deus.

A política é uma atividade humana. Cada ser humano, na perspectiva de uma cosmovisão cristã, é uma criatura de Deus e que vive no mundo criado por Deus. Sabemos disso porque a Bíblia o revela. Sabemos, ainda, que vivemos num mundo caído, afetado pelo pecado. Porém, Deus não nos deixa a mercê de nossa própria sorte. Ele vem, em Cristo Jesus, para redimir a humanidade. E, não só a humanidade, mas, todas as coisas[5]. Exatamente por isso os cristãos deveriam ser aqueles que mais se importam com este mundo criado por Deus. Isso implica em reconhecer que a cultura e a política também interessam a Deus e carecem de redenção.

Quando falamos que Deus é o criador de todas as coisas, a coerência nos leva a admitir também que existe uma ordem nesta criação. E, Deus permanece fiel a esta ordem com que ele criou as coisas. E, nós, os seres humanos, naturalmente seremos mais plenos e realizados se nos submetermos aos preceitos de Deus. A lei de Deus, portanto, não é imposta de forma arbitrária. Esta é uma interpretação que, no entanto, encontra resistência inclusive entre muitas pessoas que se confessam cristãs. O problema é que ao ignorar que Deus cria o mundo com ordem e normatividade perde-se todo e qualquer referencial. Ignora-se, por exemplo, que a função dos governantes é promover a justiça. Sim, entendemos que a promoção da justiça é um dever de cada ser humano a partir daquilo que o próprio Deus espera de nós. Como uma sociedade irá se organizar para buscar essa justiça é outro capítulo. Os meios para isso Deus não instituiu, pois esta é nossa responsabilidade. A promoção da justiça, no entanto, é uma ordem normativa da criação. Como a buscaremos fica sob a responsabilidade da criatividade e da liberdade humana. Cada contexto e realidade exigirá uma abordagem própria. Isso reconhecendo que, inclusive, há restrições à própria liberdade nesta ordem da criação.

Ignorar uma ordem normativa a partir da criação de Deus implicaria em considerar que toda e qualquer decisão humana se pauta sobre mera escolha ou preferência pessoal. Afinal de contas, o que sobraria quando não se pode reivindicar mais nenhum fundamento transcendental? Há quem argumente que restaria a vontade do mais forte, um poder soberano como uma construção social, um contrato, enfim.

Resta, ainda, uma pergunta honesta a ser enfrentada: se todos pecaram, como podemos ter acesso ao conhecimento que nos revela a correta ordem da criação de Deus? Como ter acesso e discernir o que é realmente fruto da boa vontade de Deus? A revelação geral de Deus nos permite dizer que em todas as épocas e em todos os lugares existe certa capacidade humana de reconhecer determinadas normas. Sem ignorar a realidade do pecado que nos confunde e, até mesmo cega, é fato que ao observarmos a cultura em diferentes lugares do mundo seremos capazes de notar certa tendência pela vida, pela justiça, pela cortesia, pelo discernimento entre o bem e o mal. Como tal revelação geral é ainda insuficiente, Deus faz uso também de uma revelação especial em Cristo Jesus.

Se a realidade está baseada nesta cosmovisão baseada na tríade criação-queda-redenção, logo perceberemos que as ideologias procuram oferecer a sua própria versão da realidade. Explicam a origem, os problemas e eventuais soluções a partir de outros pressupostos. Uma visão de mundo que parte do princípio de que tudo não passa de uma massa cósmica aleatória sobre a qual os seres humanos simplesmente impõem a sua vontade é bem diferente do que compreender que o mundo é uma boa e ordenada criação de um Deus de amor que nos colocou aqui com responsabilidades. Assim, cada ideologia reflete uma cosmovisão particular que está baseada em algum aspecto da criação, constituindo-se, assim, numa visão reducionista que não é capaz de dar conta da realidade como um todo.

O desafio consiste em buscar por uma abordagem social que seja biblicamente cristã e que, portanto, não seja idólatra. Se Deus é o único soberano, então, nenhum indivíduo na terra é soberano. A tradição tem o seu valor, mas, é marcada pela realidade do pecado. A comunidade humana é importante, mas, não digna de lealdade irrestrita. Governos podem ajudar a instaurar equidade econômica, mas, são limitados e não devemos depositar sobre ele as esperanças por resolverem todos os problemas. O fato é que a realidade apresenta a todos nós uma rica diversidade com que precisamos aprender a lidar por uma perspectiva cristã. Os condicionamentos geográficos, históricos, econômicos e políticos a que os seres humanos estão submetidos faz com que haja uma verdadeira pluralidade cultural no mundo. Cabe a um governo sob princípios cristãos reconhecer e proteger tal diversidade e, jamais impor apenas uma única noção de cultura. Tal postura confronta diretamente as ideologias que preferem impor seu credo baseado numa visão uniforme da realidade e que, por isso, procura moldar tudo a sua própria imagem. Como seres caídos, marcados pelo pecado, deveríamos nos conscientizar de que toda a nossa compreensão das coisas é parcial, logo, tomar a nossa verdade como se fosse toda a verdade obviamente resultará em problemas. Deus é uma unidade que cria um mundo complexo. Nós não temos condições de apreender toda a complexidade desta realidade.

Esta complexa realidade é composta por uma multiplicidade de esferas sociais ou comunidades diferentes em que os seres humanos vivem e exercem responsabilidades distintas. Em tal realidade somente Deus é soberano e absoluto. Qualquer tentativa de promover algo dentro desta realidade relativa à condição de fundamento configura idolatria. E, todo ídolo costuma exigir seus sacrifícios para que seus objetivos sejam atendidos. O problema com as ideologias é que quando elas reduzem seu sentido de ser a uma parte da criação, acabam negligenciando todo o restante e, assim, numa perspectiva reducionista, sua leitura da realidade acaba negligenciando outros aspectos desta realidade.

Concluindo, uma ideologia acaba por se identificar como idolatria na medida em que ignora a criação de Deus e apega-se a um fragmento desta criação, identificando neste fragmento o fundamento que confere sentido e razão para a leitura de toda a realidade mais ampla. Uma ideologia, portanto, apesar de conter verdade, pois baseia-se em aspectos da realidade, é incapaz de cumprir o que promete, afinal, reflete uma visão reduzida que nega as diferenças e sacrifica a diversidade do mundo criado em nome de uma unidade idólatra[6]. 

[1] GODAWA, Brian. Cinema e Fé Cristã: vendo filmes com sabedoria e discernimento. Viçosa: Ultimado, 2004. p. 13-22.
[2] I Tessalonicenses 5. 21.
[3] Lucas 4. 6.
[4] KOYZIS, David. Visões e Ilusões Políticas: uma análise e crítica cristã das ideologias contemporâneas. São Paulo: Vida Nova, 2014. p. 225.
[5] Colossenses 1. 19-20.
[6] KOYZIS, 2014, p. 54.

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Ampliando Horizontes

Com o tempo e os modernos recursos tecnológicos, o nosso horizonte foi diminuindo. Deixamos de contemplar belas paisagens do alto de colinas para focar o mundo por meio de televisores, telas de computador, tablets e smartphones. As notícias que nos chegam são mediadas. Se deixarmos de questionar, logo nos tornaremos pessoas portadoras de uma visão reduzida, limitada, imposta por outros. Perdemos com isso, nossa conexão com o passado e a perspectiva com o futuro. Perdemo-nos na efemeridade do aqui e agora. Naufragamos num mar de notícias vazias e sem grande importância na história.
Lendo o profeta Daniel somos confrontados com nossa limitada visão da realidade. Uma marca do livro são os sonhos e as visões. Deus estava revelando que existe algo mais, que a história e o mundo vão além dos projetos pessoais, dos impérios globais, dos projetos de poder. O alerta permanece: “tu te exaltaste acima do Senhor dos céus. [...]. Mas não glorificaste o Deus que sustenta em suas mãos a tua vida e todos os teus caminhos” (Daniel 5:23). Que Deus nos conceda força para deixarmos janelinhas de quatro a janelões de setenta e duas polegadas para contemplarmos a soberania daquele que é o alfa e o ômega!

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Orem e Trabalhem Pelo Melhor!

Ao lermos as Escrituras, vemos que desde o início Deus tinha propósitos claros para a humanidade neste mundo: sujeitar a terra, multiplicar, dar nomes aos animais, cuidar e cultivar (Gênesis 1 e 2). É, portanto, equivocada a ideia de que o trabalho e o desenvolvimento cultural sejam fruto da queda e do pecado.
O desejo de que as pessoas se envolvam com este mundo e assumam a sua responsabilidade por uma vida melhor está evidenciado em outras passagens da Bíblia. Enquanto o povo de Deus estava em terra estrangeira, exilado e oprimido, a palavra de Deus para eles foi esta: "Construam casas e habitem nelas; plantem jardins e comam de seus frutos. Casem-se e tenham filhos e filhas; escolham mulheres para casar-se com seus filhos e deem as suas filhas em casamento, para que também tenham filhos e filhas. Multipliquem-se e não diminuam. Busquem a prosperidade da cidade para a qual eu os deportei e orem ao Senhor em favor dela, porque a prosperidade de vocês depende da prosperidade dela" (Jeremias 29:5-7).
Enquanto somos estrangeiros neste mundo, há muito que fazer, portanto. De que forma nós estamos envolvidos com a nossa cidade, lutando para sua prosperidade? Temos nos lembrado de orar por nossa cidade, estado e nação? Que tipo de embaixadores do reino de Deus os cristãos tem sido no mundo? Não basta apenas criticar os outros, importa começar por mim!

sexta-feira, 6 de março de 2015

Pessoas, Poderes e Autoridades

Algumas reações em meio às tensões políticas dos últimos meses, no Brasil, deixam transparecer algumas curiosidades. A maior delas parece ser aquela que está gerando um efeito que poucos talvez esperassem ver um dia neste país. Até poucos anos atrás era muito comum que o grosso da população mantivesse uma opinião negativa, de crítica e suspeitas com relação aos políticos. Com o advento da internet e, especialmente com as redes sociais, atualmente desenha-se um novo quadro. Muitos têm defendido governos, políticos e partidos de forma apaixonada. As eleições de 2014 geraram debates acalorados que, inclusive, culminaram em amizades desfeitas, mágoas, ofensas e todo nível de baixaria. Tudo isso vai revelando um quadro ainda confuso aos olhos do observador. Estariam alguns políticos brasileiros mudando drasticamente suas atitudes? A velha máxima do “político ladrão” está em desuso porque cada vez mais nossos políticos tem se convertido à causa do povo, representando, de fato, o anseio dos cidadãos?

Basta um olhar mais atento para perceber que parece ser o contrário. Se os políticos não estão ainda pior, no mínimo, também não temos muita melhora (embora, quando se trata das pessoas envolvidas na política, existam obviamente exceções). A defesa apaixonada de políticos através de eventos, passeatas e manifestações na internet (desde redes sociais, blogues, sites de notícias, etc.) não costuma revelar uma análise coerente, pormenorizada, atenta às ideias e projetos (novamente reconhecemos as exceções). As redes sociais contribuíram para o fenômeno que faz com que as pessoas apenas precisem gostar de determinado tema e debater sobre ele para considerarem-se especialistas (cá estou eu, dando uma de... rs...). Não que seja errado ou um crime emitir opiniões. O que assusta mesmo não é isso. Pois, discordância, discussões acaloradas, debates e conversas sobre temas diversos do cotidiano sempre estiveram presentes nas rodas de boteco e outros fóruns populares. Embora não livre de certas exaltações e, até mesmo, atitudes mais radicais de violência, estas rodas da vida real permitiam uma proximidade com a própria realidade, com o outro de carne e osso, o olho no olho. No mundo virtual, devido a impessoalidade e consciência de não ser responsabilizado de forma mais direta, a violência e agressividade tornam-se mais evidentes.

Quando deixamos de ver o outro como pessoa, um ser humano, alguém criado à imagem e semelhança de Deus como eu mesmo o sou, para ver apenas a camiseta estampada, a bandeira empunhada, o discurso ideológico proclamado, e tantos rótulos que saltam de nossos teclados sem nem ao menos refletirmos sobre o que estamos atribuindo apressadamente ao “oponente”, então, um sinal de alerta deveria soar. Pode ser que alguma espécie de fanatismo já esteja nos dominando de tal forma que nossa luta passou, sim, a ser contra carne e sangue, em favor de potestades e dominadores deste mundo (Efésios 6. 12) que cativaram nossos corações de tal forma que não mais nos importamos em sacrificar família, amigos, enfim, seres humanos no altar de algum ídolo que nos escravizou. Se ainda nos resta algum sinal de lucidez, oremos para que Deus nos conserve humanos, sensíveis, e, com algum discernimento. Além se sermos seres humanos criados à imagem e semelhança de Deus, a cosmovisão cristã revela também que o pecado corrompeu a boa criação de Deus. Assim, somos todos carentes da graça e da misericórdia do Senhor.

Cientes da soberania de Deus, cuidemos para não absolutizarmos nossas convicções a tal ponto de não mais conseguirmos escutar, ponderar, refletir e, quem sabe, admitir que não somos os donos da verdade. Quem sabe, estejamos, sim, equivocados. Talvez eu mesmo, com este texto, esteja. O que importa, não é se devo ou não me manifestar, mas, o quanto estou também disposto a deixar que esta minha posição, tornada, agora, pública, possa sofrer, críticas, questionamentos, correções. Tudo isso, sem que eu considere o autor das opiniões contrárias um inimigo, mas, tão somente, um instrumento de Deus nesta confusa peregrinação humana onde, muitas vezes, não passamos de cegos querendo guiar outros... Neste sentido, sim, mas, sem querer justificar ninguém com isso, nossos políticos são reflexo daquilo que somos todos, enquanto indivíduos falhos, propensos a escorregar, corromper, fraudar, tirar vantagem, legislar em causa própria. A pergunta que fica, portanto, é: Como organizar uma estrutura e processos que protejam os cidadãos de si mesmos? A quem ainda prestamos conta!?

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Família: um conceito original

A compreensão estreita que vê a religião apenas como aquela que diz o “que pode” e “o que não pode” interfere na maneira como compreendemos a vontade de Deus também a respeito da família. A Bíblia não é um manual de instruções. Ela contém princípios que nos revelam a boa, agradável e perfeita vontade de Deus. E, o Apóstolo Paulo diz que esta é uma vontade que podemos experimentar. Mas, isso depende de certo inconformismo com o “espírito da época” (Rm 12.2). A vontade de Deus a respeito da família está revelada já no princípio das Escrituras. Lemos em Gênesis 1.27 que “criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou”. Diferente daquilo que costumamos ouvir, o Novo Testamento não revela coisas diferentes, anulando a revelação do AT. A vontade de Deus permanece a mesma. Jesus deixa isso muito claro quando, numa discussão com os fariseus, faz uso daquilo que todos já sabiam: "Vocês não leram que, no princípio, o Criador ‘os fez homem e mulher’ e disse: ‘Por essa razão, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e os dois se tornarão uma só carne’?” (Mateus 19.4-5).

Jesus não apresenta nenhuma reinterpretação para acomodar o texto e a vontade de Deus aos “novos tempos”. Ele apenas reafirma a revelação e a vontade original de Deus. Pois é isto que Cristo veio fazer: restaurar o mundo e o ser humano que encontram-se corrompidos pelo pecado. Jamais veremos Jesus justificando o pecado ou propondo uma releitura da Bíblia de modo que se encaixe melhor em nossos padrões.

As distorções, consequências do pecado, obviamente estão aí, por toda parte. Mas, Jesus não autorizou que nenhuma destas distorções fosse colocada como referência legítima para novos modelos. Ele sempre de novo apontou para o Pai, o Criador, a origem de tudo. Aquele cuja vontade é boa, perfeita e agradável! Viver segundo esta vontade é viver conforme a realidade que o Pai desejou!

O Senhor Jesus é aquele que redime também relacionamentos, lares, e famílias! Que possamos nos deixar transformar por sua graça e misericórdia, de modo que experimentemos a boa, agradável e perfeita vontade de Deus para nossas famílias!

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Revolución ou Reformación?

Em parceria com a Obra Gustavo Adolfo (OGA), o Conselho Nacional da Juventude Evangélica (CONAJE) da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB) está lançando um modelo de camiseta com a marca “Viva la Reformation”, uma paródia da logo "Viva la Revolution" com Che Guevara.
Estampa das camisetas do CONAJE

Não se trata de nada original, uma vez que a ideia já é encontrada em outros países. Há apenas uma pequena variação: a camiseta do CONAJE tem o rosto de Lutero e a frase “Viva la Reformation” (“Viva a”, em espanhol, e “reforma” em alemão), enquanto a que já existe fica ainda mais próxima ao espírito latino com "Viva La Reformación". O que não consegui encontrar nas páginas da internet e redes sociais que
divulgam a camiseta é uma explicação para a arte e a frase estampada. Só diz que é uma promoção devido os 500 anos da Reforma Protestante que acontecerá em 2017. E, diz ainda o texto divulgação, "a identidade visual criada nos faz refletir quanto a que reformas precisamos em nossa sociedade e em nossa Igreja hoje, quase 500 anos depois de Lutero". Não sabemos quais foram as reflexões e as motivações para terem chegado a esta proposta. E, nem mesmo por que uma produção para os 500 anos de Reforma está muito mais relacionada ao revolucionário argentino do que propriamente à causa da Reforma Protestante. Ficarei aguardando como tal identidade visual nos fará "refletir quanto a que reformas precisamos em nossa sociedade".

Quero, no entanto, aproveitar o ensejo e tecer alguns comentários sobre os termos 'reforma' e 'revolução'. Elas não significam a mesma coisa. Se foi pensando na diferença entre os dois termos que o CONAJE decidiu colocar esta arte na camiseta, então, sim, pode ser que os desdobramentos e a reflexão que tudo isso vai gerar pode ser bastante positivo. Buscando por uma definição dos dois termos, um dicionario online trás o seguinte:
 Revolução: Revolta, sublevação. Mudança brusca e violenta na estrutura econômica, social ou política de um Estado (ex.: a Revolução Francesa).
Reforma: Ato ou efeito de reformar. Mudança operada tendo em vista um melhoramento. Melhoramento introduzido numa regra muito moderada, numa ordem religiosa. Nova organização ou modificação de uma organização existente.

Obviamente que pode acontecer de alguém tomar uma palavra com o sentido de outra. Ambos os termos partem de um mesmo princípio que é a "mudança". Nós sabemos que com a reforma Lutero buscava mudanças na igreja. Mas, será que ele optou pela via da reforma ou da revolução? E notório que ele nunca pretendeu por abaixo toda a tradição da igreja, sua agenda não foi o da radicalidade. O reformador não queria acabar com toda a igreja católica de modo que nenhum vestígio sobrasse. Não, o monge alemão não desejava romper com tudo, o que ele desejava era exatamente aquilo que o termo que utilizamos ao longo dos séculos quer dizer: reforma. Os reformadores acreditavam na estratégia de que para uma mudança histórica, melhor é a renovação progressiva em vez de destruição violenta. E é conhecida na história da Reforma Protestante o rompimento de Lutero com um de seus colaboradores chamado Thomas Müntzer. A razão é que Müntzer não achava que Lutero fosse radical o suficiente. A consequência foi a guerra dos camponeses. Outro aspecto importante da biografia de Lutero é que ele nunca propos criar uma nova igreja. Tampouco foi dele a iniciativa de deixar a igreja católica. O que aconteceu foi a excomunhão, ou seja, Lutero foi expulso pelo papa da época que não concordava com as reformas propostas pelos reformadores liderados por Martim Lutero.

Portanto, reforma pressupõe mudança sobre algo já existente. A Reforma Protestante não rejeitou toda a tradição, ela quis apenas reformar a tradição e denunciar os seus erros para que houvesse um redirecionamento. A palavra revolução é descartada por sua conotação negativa, pois é geralmente caracterizada por "(1) violência necessária, (2) remoção completa de cada aspecto do sistema estabelecido e (3) construção de uma ordem social totalmente diferente de acordo com um ideal teórico"*. Assim, a palavra reforma é preferível, pois o princípio da reforma "enfatiza a necessidade de evitar a violência. Nenhuma ordem social ou religiosa é absolutamente corrupta. E, a reforma "não coloca a sua confiança em planos e concepções da sociedade ideal alcançada por especulação científica ou pseudocientífica". A abordagem da reforma "enfatiza os aspectos positivos da tradição, da autoridade, da continuidade histórica". Se for isto que a camiseta do CONAGE pressupõe, então, sim, "Viva la Reformation". E, a melhor arma de Lutero foi a Palavra. No entanto, se o objetivo for uma aproximação com os métodos sangrentos da guerrilha e da luta armada com a qual se identifica Che Guevara, então, Jesus Cristo realmente precisa ficar de fora da conversa. Quais são as mudanças, portanto, que precisamos em nossa sociedade? Quais são as reformas necessárias? Quais serão os meios e estratégias necessários para trabalharmos pelas reformas?

A mudança é positiva e necessária. As instituições precisam se deixar renovar, reformar. O princípio da reforma permanece um desafio para nós, igreja no século XXI: "Ecclesia reformata et semper reformanda est" (A igreja reformada está sempre se reformando). Que possamos todos, jovens ou não, celebrar os 500 anos da Reforma Protestante no melhor espírito da reforma que é permanecer sempre reformando!
Pintura feita por Lucas Cranach

 * WOLTERS, Albert M. A Criação Restaurada: base bíblica para uma cosmovisão reformada. Tradução de Denise Pereira Ribeiro Meister. São Paulo: Cultura Cristã, 2006. p. 103.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Faz Sentido!

Você também já deve ter ouvido especialistas se referindo à fase dos porquês no desenvolvimento das crianças. Quem convive com crianças, especialmente pais e professores, já notou isso mesmo sem a ajuda dos especialistas. Faz parte da experiência humana querer compreender este mundo que se revela à nossa volta. Nesta busca todos nós precisamos encontrar algum sentido para as coisas. Embora alguns digam que as perguntas revelam a curiosidade das crianças que querem saber como as coisas acontecem, na realidade, é mais do que mera curiosidade. Organizar o mundo à nossa volta de modo a compreendê-lo dentro de uma perspectiva que dê algum sentido para todas as coisas é algo inerente ao ser humano. Ninguém consegue viver numa realidade totalmente caótica. Assim como procuramos manter a nossa casa, o nosso ambiente de trabalho e a nossa mesa minimamente organizados, também necessitamos nos organizar mentalmente.

Embora possamos conviver com a dúvida e suportemos o fato de não termos as respostas para tudo, vivemos o tempo todo encaixando o novo dentro de um escopo mais amplo de modo que haja alguma harmonia em nossa visão de mundo. É assim que, muitas vezes, aceitamos uma resposta e convivemos com ela até que algo que demonstre fazer mais sentido apareça. Pode acontecer de, em algum momento, a pessoa se dar conta de algo tão fundamental que isso implique em toda uma revisão de vida. É como se não bastasse apenas encontrar um espaço na casa para um novo quadro. A peça é tão rara e valiosa que exige toda uma reforma no ambiente. Perceber como estas coisas acontecem é fator determinante na busca por autoconhecimento e sentido existencial. Além de estarmos abertos a novos aprendizados, o fato é que estamos sempre arranjando as coisas de modo que o mundo à nossa volta faça algum sentido.

Portanto, se no dia a dia das crianças se percebe esta fase mais evidente das perguntas, todos nós passamos a vida em busca de respostas. A maneira como respondemos as grandes questões da vida vai determinar fortemente a maneira como viveremos. Pois não se trata apenas de uma questão teórica. Vivemos como pensamos. Nossos gestos, atitudes e reações, refletem de alguma forma, as nossas crenças a respeito de como este mundo funciona. Estas respostas são mais óbvias a respeito de questões relacionadas ao mundo físico. Todos, em condições normais, respondemos da mesma maneira à lei da gravidade. Não é assim, porém, quando se trata das questões mais subjetivas. Aqui se explica, por exemplo, a existência das diferentes ideologias e religiões no mundo. A sociedade, a cultura e a realidade que vemos à nossa volta é produto do esforço de pessoas que estão procurando organizar as coisas de acordo com as respostas que elas estão enxergando para sua busca de sentido.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Sem Corações Transformados Não Haverá Nação Transformada

Quando no dia 31 de outubro de 1517 o monge Martim Lutero pregou 95 teses na porta da Catedral de Wittenberg, na Alemanha, a situação religiosa era bastante desfavorável ao povo. Uma igreja que concentrava o poder e a informação impedia o acesso das pessoas de modo que havia muita insatisfação. Relíquias eram literalmente vendidas pelos líderes religiosos. A cada dia surgiam novos badulaques que eram oferecidos às pessoas em forma de amuletos que prometiam a benção de Deus. Desde pedaços da cruz de Cristo até ossos do Apóstolo Pedro, tudo servia aos interesses de clérigos inescrupulosos que estavam longe das reais necessidades do povo. Muito do dinheiro arrecadado com as indulgências serviria para a construção de um grande templo. Considerável parte do clero estava totalmente corrompida.

O mais impressionante é que muitas coisas não mudaram depois destes quinhentos anos. É claro que muito se aprendeu, as instituições mudaram, os tempos são outros. Mas, assim como na história está registrado, a maldade humana não tem cor, partido, ideologia ou religião. Simplesmente dizer que “a religião mata” ou que “o capitalismo é o mal do Ocidente” é incorrer num equívoco que apenas favorece a violência e a intolerância. Quando Lutero compreendeu que “o justo viverá por fé” (Romanos 1. 17), ele já sabia também que “não há nenhum justo, nem um sequer” (Romanos 3. 10). Com isso estamos dizendo que o mal não está no outro apenas ou, numa força impessoal, mas, em mim mesmo.

 Enquanto não compreendermos que somos todos falhos, limitados, sujeitos ao erro, dados ao orgulho, à ganância, à cobiça, enfim, pecadores, será difícil uma abertura sincera e humilde capaz de gerar a mudança tanto almejada. A revolução que muitos defendem ignora que o revolucionário não é melhor que aqueles a quem procura destruir. A história não nos deixa mentir. Seja no âmbito político, econômico ou religioso, segue-se uma sucessão de erros e acertos. Também as igrejas que surgiram com a Reforma no século dezesseis, não tardaram em demonstrar que as instituições que criamos apenas refletem aquilo que está em nosso coração. As mazelas, infelizmente, não são privilégio apenas desta ou daquela religião (Romanos 3. 23).

Uma lição que tiramos da Reforma Protestante é que Deus continua fiel aos seus propósitos. Ele está sempre pronto a auxiliar homens e mulheres que humildemente ousam submeter-se aos seus desígnios. A revolução protestante questionou o status quo da época, mas, isso foi fruto da contestação de um monge que lutava primeiro contra si mesmo! E, Lutero não foi o único, graças a Deus!

Mais sobre a Reforma Protestante neste blog:
A Porta de Wittenberg
Graça Reformadora
Sempre em Reforma
Réplicas...
Sacerdócio Geral

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Uma Voz Que Chama

Se a palavra vocação significa, originalmente, um chamado, a pergunta lógica que faço é: quem chama? E, se vocação está ligado ao que fazemos, poderíamos perguntar ainda para quê sou chamado. Pois o chamado pressupõe, além de uma voz que chama, também uma missão. Compreendendo o meu envolvimento com a realidade como algo que possui algum significado, somente a fé num Deus que chama explica este significado. Posso fazer por fazer, realizar para ganhar dinheiro, elogios, reconhecimento pessoal. Mas, será que não existe algo maior? De maneira bem geral, o relato da criação, em Gênesis, fornece pistas sobre a missão humana. Deus, ao criar os seres humanos, confia-nos a responsabilidade de cuidar e cultivar esta boa criação.

Na teologia reconhecemos estas atribuições humanas como o mandato cultural de Deus. Dentre os verbos que denotam ação, uma responsabilidade confiada às criaturas racionais, nós encontramos: dominar, subjugar, sujeitar, multiplicar, nomear, cuidar e cultivar. Percebemos, portanto, o Deus criador chamando a todos nós para participarmos da criação, desenvolvendo todo o potencial deste mundo. Importante destacar que ao final do primeiro capítulo de Gênesis, Deus faz uma avaliação de todo o resultado de seu trabalho criativo: “Deus viu tudo o que havia feito, e tudo havia ficado muito bom” (Gênesis 1:31). Logo, também as atribuições humanas e o fato de que as pessoas deveriam se envolver estava avaliado como algo bom.

A pergunta seguinte que precisamos fazer é: o trabalho que realizamos pode ser avaliado da mesma forma? O fruto de nosso envolvimento com a realidade produz algo bom? Se eu compreendo que toda a minha vida e aquilo que eu faço está conectado com algo maior, a perspectiva muda. Estou contribuindo com algo superior. Atendo ao chamado de Deus. Trabalhar não é pecado. Tampouco é um castigo que recebemos por sermos pecadores. Trabalhar é uma característica intrínseca ao ser humano. Ninguém conseguiria viver o tempo todo no ócio, sem produzir nada. Sentimos falta de nos ocuparmos com algo.

Se Deus é quem me chama e, se ele me chama para algo significativo, a um envolvimento responsável, que tipo de resposta eu estou manifestando? Pense na tua profissão, no teu trabalho... Você consegue enxergar aquilo que você faz como uma contribuição maior para a humanidade? Ou, estamos saindo da cama todos os dias apenas para cumprir uma obrigação enfadonha em troca do salário ao final do mês?

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Trabalho e Vocação

Você já consegue ver a sexta-feira daí? Basta chegar a segunda-feira que muitas pessoas já começam a esperar ansiosamente pela sexta-feira. Quem nunca viu expressões, imagens e desabafos neste sentido? Parece que a vida acontece mesmo nos finais de semana. Os outros dias precisam ser suportados para que possamos desfrutar de algumas horas de puro êxtase, euforia, realização, enfim, a felicidade. O trabalho é um mal necessário, um preço a se pagar para que a vida valha a pena, nem que seja somente quando chegar a sexta-feira! De onde vem essa ideia? Por que o trabalho precisa ser encarado como castigo? Será que simplesmente a maioria das pessoas está na atividade errada? Ou esta cultura de desprezo pelo trabalho é fruto de algo mais profundo em nossa cultura?

Existe uma crença popular que relaciona o trabalho com castigo. Mas, de onde vem esta crença? Por muito tempo, na história, houve uma interpretação equivocada dos três primeiros capítulos do livro bíblico de Gênesis a respeito disso. E, como o nosso mundo Ocidental, especialmente, é marcado pelo cristianismo, muitos acabam disseminando a falsa doutrina de que o trabalho é um castigo por causa do pecado. Adão e Eva teriam desobedecido a Deus e, assim, como castigo, a humanidade sofre precisando trabalhar para obter do suor de seu rosto o pão de cada dia. Há quem ainda acredite nisso! Para piorar, a origem etimológica da palavra trabalho também remete à dor, sofrimento, tortura, castigo. O termo vem do latim TRIPALIUM, que designava um instrumento de tortura formado por três estacas agudas (tri + palum = Três paus). Esta palavra passou ao francês como TRAVAILLER, significando “sofrer, sentir dor”, evoluindo depois para “trabalhar duro”. Logo, trabalhar é sofrer como num Tripalium. Não nos admiremos, pois, que muitos encarem o trabalho como algo a se evitar a todo custo.

Com a tradição protestante, homens como Martim Lutero e João Calvino contribuíram para resgatar uma compreensão novamente próxima ao que a Bíblia realmente apresenta sobre o tema. O trabalho jamais pode ser encarado como um castigo de Deus. Pois não existe nenhum ensinamento bíblico neste sentido. Assim, precisamos reaver o sentido e a importância da palavra vocação em nossos dias. Mesmo que não houvesse ocorrido a desobediência de Adão e Eva, o trabalho já estava nos planos de Deus na origem da Criação. Originalmente a palavra vocação vem de VOX e VOCARE, do latim significando “voz que chama”. Uma releitura dos capítulos um e dois de Gênesis no levará a concluir que Deus chama os seres humanos para envolverem-se na administração e cultivo da sua boa criação. Logo, esta atividade humana constava na avaliação de Deus que concluiu que “tudo havia ficado muito bom” (Gênesis 1.31).

domingo, 1 de setembro de 2013

Cuidar e Cultivar

O texto inicial que nós encontramos em Gênesis, na Bíblia, é fundamental para que possamos compreender também o restante das escrituras. A Bíblia não é um livro de autoajuda e nem deve ser lido apenas aos fragmentos. Existe uma coerência, uma narrativa que vai encadeando os fatos de modo que encontramos ali uma visão abrangente do mundo e da realidade. Quando partimos apenas de algumas partes isolando-as do todo, corremos o risco de dizermos coisas que, na realidade, nunca foram intenção dos autores bíblicos. Manipular textos de modo que possamos utilizá-los para fundamentar nossos próprios interesses é uma prática tão antiga quanto a própria escrita. A Bíblia não deve ser lida apenas para retirar dali versos que nos consolem ou que tragam alguma motivação para o dia a dia. Embora possamos, sim, ser consolados e motivados pelas palavras que lemos nos Salmos, nos profetas, nos evangelhos ou nas cartas de Paulo, estaríamos fazendo um uso muito superficial se tratássemos a Bíblia apenas como um manual para uma vida melhor.

Como livro sagrada dentro de uma importante tradição de fé, a Bíblia fornece fundamentos e princípios a respeito do drama cósmico que envolve a humanidade. Ela começa dizendo que não somos fruto de mero acaso, mas, que somos resultado de um gesto criativo e amoroso. Um Deus nos criou bem como todas as coisas. Compreender isto implica em perguntar não apenas como fomos criados, mas, por quê ou para quê fomos criados. Assim, a Bíblia também não pode ser tratada como uma espécie de manual científico. Trata-se de um livro bastante antigo, produzido numa época quando a ciência moderna ainda não existia. Logo, as escrituras precisam, também, ser respeitadas em seu contexto.

Compreender os capítulos iniciais da Bíblia, portanto, é fundamental porque se compreendemos que fomos criados, o relato de Gênesis revela também que fomos colocados na criação de Deus com aptidões e responsabilidades. Um estudo minucioso dos capítulos um e dois do Gênesis levará à conclusão de que é nossa responsabilidade gerir bem a criação de Deus. É como se o Criador nos tivesse feito por último para que déssemos continuidade ao ato criativo que herdamos dele: “O Senhor Deus colocou o homem no jardim do Éden para cuidar dele e cultivá-lo” (Gênesis 2:15). Existe uma relação entre as palavras cultivar e cultura. Logo, estamos falando, aqui, de nossas interações com o mundo. Desta intervenção humana no mundo e na realidade é gerado algum tipo de desenvolvimento. Logo, temos uma relação entre a cultura e a história. Somos responsáveis e não podemos simplesmente nos eximir disso. Que tipo de cultura tem resultado de sua interação com a realidade criada?

Leia também:
O que a Bíblia Diz Sobre Meio Ambiente
O Mandato Cultural
Somos Todos Responsáveis Pela Natureza

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Somos Todos Responsáveis Pela Natureza

Isso mesmo! Cristãos preservam, protegem e defendem a natureza. Se alguém se diz cristão e trata com desleixo a sua cidade, a sua casa, o seu quintal e o meio em que vive, é porque ainda não compreendeu as reais implicações de sua fé. Sabemos também que é natural encontrar pessoas que se dizem uma coisa e que com suas atitudes demonstram algo diferente e, até, contrário. Lamentável. O processo de aprendizagem, no entanto, é progressivo. Há esperança. Coloquemo-nos humildemente diante de Deus e, que nossas mentes sejam transformadas, dia após dia, para que experimentemos a sua vontade que é boa, perfeita e agradável (Romanos 12. 2).

É realmente uma pena que a tradição cristã tenha deixado se impregnar de uma crença que divide a realidade em duas: espiritual e físico. Esta divisão, que é uma herança da cultura grega, faz com que muitos religiosos encarem o mundo físico e, portanto, grande parte da criação de Deus, como algo ruim, mal, negativo. Logo, desenvolve-se a crença de que importante mesmo é a alma, o espírito, o céu. O desafio consiste em buscar na tradição hebraica uma compreensão do ser humano, da vida e do mundo que seja integral. Se Deus criou todas as coisas e avaliou tudo como sendo muito bom (Genesis 1. 31), então, precisamos rever nossos conceitos dualistas. Pois muito da relação descomprometida com a natureza, os animais e o meio ambiente em geral, pode ser fruto desse equívoco que distorce a realidade.

Vejamos alguns textos bíblicos que relatam a criação. “Disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança. Domine ele sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os animais grandes de toda a terra e sobre todos os pequenos animais que se movem rente ao chão. Criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou” (Gênesis 1.26-27). E, “Deus os abençoou, e lhes disse: Sejam férteis e multipliquem-se! Encham e subjuguem a terra! Dominem sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todos os animais que se movem pela terra" (Gênesis 1.28). Mais adiante: E, finalmente, “depois que formou da terra todos os animais do campo e todas as aves do céu, o Senhor Deus os trouxe ao homem para ver como este lhes chamaria; e o nome que o homem desse a cada ser vivo, esse seria o seu nome. Assim o homem deu nomes a todos os rebanhos domésticos, às aves do céu e a todos os animais selvagens” (Gênesis 2.19-20). Releia prestando atenção nos verbos dominar, multiplicar, encher, subjugar, nomear. São ações que se espera de quem? Portanto, Deus colocou o ser humano delegando a eles responsabilidades para com a sua boa criação.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

“Saiu Igualzito ao Pai”*

Saber que somos feitos à imagem e semelhança de nosso criador (Gênesis 1. 27) significa compreender muitas coisas. Sabemos que estamos ligados a uma fonte transcendente que é capaz de nos completar e dar sentido à vida. Encontramos também respostas a respeito de nossa vocação. Aos criar o ser humano, Deus esclarece que ele deveria cuidar e cultivar a terra, dar nome aos animais, crescer e reproduzir-se (Gênesis 1 e 2). Várias gerações mais tarde recebem de Deus aquilo que ficou conhecido como Os Dez Mandamentos (Êxodo 20). Dentre estes mandamentos encontramos aquele que diz: "Não farás para ti nenhum ídolo, nenhuma imagem de qualquer coisa no céu, na terra, ou nas águas debaixo da terra” (Êxodo 20. 4). Na tradição bíblica, um ídolo não era compreendido como sendo outro Deus em si. Mas, como aquilo que representava o verdadeiro Deus na terra. O ídolo era simbólico. Não vendo Deus, sentindo a falta de uma presença de Deus, o povo criava uma imagem para este Deus. Portanto, é isso que Deus está dizendo para o povo não fazer!

O problema é que o povo, na ânsia de ter uma manifestação local, um Deus visível, concreto, presente, logo procura retratar este Deus. Por exemplo, durante a peregrinação do povo de Israel pelo deserto rumo à Canaã, Moisés era o líder e, para o povo, o porta voz, a representação de Deus. Quando Moisés demora-se no monte, o povo resolve criar outra imagem de Deus para si (Êxodo 32). É quando decidem criar o seu bezerro de ouro. O problema em criar imagens representativas de Deus é que atribuímos a essa imagem características da nossa humanidade. E, logo nos esquecemos do verdadeiro Deus e passamos a adorar a sua imagem. O resultado é que se adora um ídolo que não representa de fato quem Deus é. Por que, então, Deus diz que não devemos criar ídolos ou imagens de Deus? Ora, se um filho cresce com a tendência de tornar-se parecido, tanto fisicamente quanto em personalidade, com os seus pais, lembremo-nos de que a imagem de Deus na terra já existe. Quem foi criado à imagem e semelhança de Deus?

Toda imagem que fizermos será não apenas algo menor e mais limitado que Deus, mas, também mais limitado que nós mesmos. Sem falar que me ponho no lugar de Deus ao querer eu mesmo criar algo à imagem e semelhança dele. Tudo o que eu vou conseguir será reproduzir algo que se parece mais comigo do que com Deus. Tudo isto faz parecer ridículo qualquer crença num objeto, num imagem de escultura, ou qualquer outra coisa que elegemos para adorar. É ainda mais sério quando voltamos à questão da semelhança: com quem nos tornamos mais parecidos ao longo da vida? O salmista diz que os ídolos são feitos por mãos humanas. E, tornamo-nos como eles ao fazê-los e confiar neles (Salmos 115. 1-8). Tornar-se parecido com algo menor do que aquilo para o qual fomos criados é desumanizar-se! A desumanização é fruto de nossa idolatria!


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 * Enquanto escrevia este texto lembrei desta frase que está nesta música que é muito conhecida aqui no Rio Grande do Sul: Guri - Os Serranos. Na internet é possível encontrar diversas outras versões e regravações com muitos outros intérpretes.

terça-feira, 30 de julho de 2013

“Esculpida em Carrara”

Depois que passamos a ter filhos notamos o quanto as pessoas fazem observações tentando identificar as semelhanças do bebê com seus pais. Enquanto uns encontram mais semelhança com a mãe, outros já veem a imagem do pai. Fato é que cada indivíduo é único, exclusivo, ao mesmo tempo semelhante e alguém diferente. Além de nos parecermos uns com os outros, existe ainda uma semelhança que diz respeito à nossa origem. É natural que um bebê apresente traços físicos e de personalidade que lembram os seus pais. Mas, com origem, refiro-me, ainda a algo mais. Assim como temos o nosso umbigo que lembra que não fomos feitos de e por nós mesmos, o ser humano também sabe que possui uma origem transcendente. Sabemo-nos, consciente ou inconscientemente, conectados a uma origem, a algo que está além, acima, e é maior do que nós. Por isso, nós estamos invariavelmente inclinados a nos conectar com algo, a buscar pelo que nos completa, que nos preencha e dê sentido. Somos, portanto, também portadores de uma imagem e uma semelhança que reflete esta fonte originadora.

Todos nós possuímos as nossas crenças, teorias e explicações para esta origem. E, como nem mesmo as teorias tidas como científicas gozam de aceitação universal, vivemos num mundo onde cada um acredita naquilo que pareça fazer mais sentido. Como cristãos, cremos que a nossa origem está em Deus. Lemos em Gênesis 1. 27 que “criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou”. Existe uma longa tradição de textos e discussões a respeito do que seria essa imagem e semelhança de Deus no ser humano. Não haveria tempo e espaço aqui para fazermos uma exposição exaustiva a respeito. De forma bem resumida, a tradição reformada do cristianismo acredita que temos aí duas coisas, basicamente: 1) que fomos criados para governar sobre a Terra, sobre a boa criação de Deus; 2) Que existe em nós uma origem fora de nós, o que nos torna seres religiosos, adoradores, cultuadores. Assim como o umbigo lembra que nascemos de outro ser humano, a nossa essência religiosa nos leva a concluir que fomos criados por alguém que transcende o mundo que conhecemos.

Para compreender o primeiro ponto, basta verificarmos o quanto somos criativos, seres culturais, que interferem na realidade dando origem a novas coisas. Foi assim que Deus nos criou. É o mandato cultural. As duas questões estão inter-relacionadas, e, o ser humano criado à imagem de Deus é um adorador. Ele busca e necessita da referência transcendente assim como é fundamental para a criança crescer sob a educação, orientação e referencial dos pais. Sem Deus estamos incompletos! Ninguém é capaz de deixar de sentir esta ausência! A nossa tragédia inicia quando achamos que podemos preenchê-la com algo menor que Aquele que deu origem a tudo!

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* Quando falamos que fulano é o pai cuspido e escarrado, queremos dizer que o sujeito em questão é muito parecido com o genitor. E foi também por ser parecida com sua expressão original que o termo “cuspido e escarrado” surgiu. Ele é, na verdade, resultado de alguns mal-entendidos. No Brasil colonial, os barões do café contratavam artistas para esculpirem seus bustos, num sinal de pompa. Para retratar fielmente o barão, era exigido que sua imagem fosse esculpida em mármore de carrara, famosa pedra italiana conhecida por ser o mármore mais duro que existe. A estátua, que ficava realmente muito parecida com o ilustre modelo, deu origem à expressão “esculpida em carrara”. Acontece que, da cozinha, os criados acabaram distorcendo-a para “cuspido e escarrado”. A nova – e bem mais nojenta – versão acabou pegando.

sábado, 13 de julho de 2013

O Mandato Cultural

O Semeador de Vincent Van Gogh
Você já ouviu falar em Mandato Cultural? Mandato implica numa ordem, uma delegação, uma autorização ou procuração que alguém dá a outrem para, em seu nome, praticar certos atos. Quando os cristãos se referem à Grande Comissão, por exemplo, referem-se, normalmente, às palavras de Jesus encontradas em Mateus 28.19-20. Com isso, interpretam que Jesus comissionou, ou seja, deixou um mandato evangelístico à igreja. Significa que cada cristão é um missionário encarregado de propagar o evangelho. Porém, o Mandato Cultural é anterior ao mandato evangelístico. O termo cultural, obviamente, refere-se à cultura. Em sua origem a palavra cultura estava relacionada com o ato de plantar e cuidar de plantas. Se existe um texto bíblico referência para o mandato evangelístico, encontramos também uma referência ao Mandato Cultural. Na criação o relato de Genesis nos diz que “o Senhor Deus colocou o homem no jardim do Éden para cuidar dele e cultivá-lo” (Gênesis 2:15). Portanto, aqueles que creem num Deus criador assumem também esta responsabilidade para com a criação. As responsabilidades dos seres humanos para com a criação estão explicitadas também nos relatos de Gênesis 1. 26-30 e 2. 15-20. Estes textos que compreendem a criação do ser humano revelam aquilo que se espera destas criaturas feitas à imagem e semelhança do seu criador.

A ordem de Deus desde o princípio foi para que os seres humanos dominassem, subjugassem, cuidassem e cultivassem a criação. E, esta não poderia ser uma tarefa possível sem o envolvimento direto que configura trabalho para os seres humanos. Tal responsabilidade pressupõe a participação ativa do ser humano no desenvolvimento cultural do mundo. Deus chama o ser humano como um cooperador na tarefa de colocar ordem na sua Criação. Desde o princípio, trabalhar e cultivar o jardim são parte de nossa vocação divina. A cultura é, portanto, o resultado de nossa interação com a realidade. Todo resultado de nossa interferência na realidade é um produto cultural. Desta intervenção humana no mundo e na realidade é gerado algum tipo de desenvolvimento. Logo, temos uma relação entre a cultura e a história. Deus comissionou os seres humanos a participarem ativamente na sua criação e a desenvolverem cultura.

No desenvolvimento cultural a humanidade progrediu do cultivo de plantas até pesquisas de ponta que permitiram as descobertas mais extraordinárias. Temos hoje tecnologias que os seres humanos mais primitivos jamais poderiam imaginar. Que tipo de resultados essa nossa intervenção na realidade tem gerado? O padrão para compreendermos as palavras envolvidas no Mandato Cultural é o próprio Deus e sua avaliação da Criação em Gênesis 1.31: “E Deus viu tudo o que havia feito, e tudo havia ficado muito bom”. Além de evangelizar, portanto, somos chamados por Deus a desenvolvermos a cultura de modo que esta reflita a boa, perfeita e agradável vontade de Deus.

terça-feira, 2 de julho de 2013

As Autoridades Governamentais

As autoridades governamentais não existem para si mesmas. Quando o apóstolo Paulo trata sobre o assunto, deixa claro que as autoridades existem para trabalhar pelo bem das pessoas, manter a ordem e punir aqueles que praticam o mal (Romanos 13. 3-5). Ao longo da história vários trabalhos, debates e reflexões se deram em torno da organização do estado e do papel das autoridades. No entanto, perceber que este tema é abordado já nas Escrituras, nos leva a refletir sobre o assunto numa perspectiva cristã. A grande revelação dos ensinamentos bíblicos é que nenhuma autoridade está livre da prestação de contas. Se no estado democrático de direito os governantes devem responder ao povo, antes disso, sabemos que as autoridades também respondem a Deus: “pois não há autoridade que não venha de Deus; as autoridades que existem foram por ele estabelecidas” (Romanos 13. 1). E, não se trata apenas das boas autoridades, mas, todos aqueles que governam, desde o mais justo até o mais tirânico. Lembremos as palavras de Jesus à Pôncio Pilatos: "Não terias nenhuma autoridade sobre mim, se esta não te fosse dada de cima” (João 19. 11).

A função de governar é algo legítimo. Uma nação deve se organizar com suas leis e autoridades. Os cristãos não são anarquistas ou subversivos irresponsáveis. Reconhecemos o valor das autoridades e nos submetemos a elas. Nós sabemos que o ideal divino é diferente da realidade humana. Todo cristão sabe da realidade do pecado. Embora esta palavra não seja muito popular, sendo substituído por tantos outros sinônimos, o ser humano carrega em sua natureza o potencial para o mal. Por isso, não deveríamos nos deixar enganar pelas falsas utopias. Nenhuma autoridade é instituída e autorizada a agir com tirania contra o povo. O limite da nossa obediência vai até onde a obediência ao estado não implicar em desobediência a Deus. Simplesmente dar vazão a todo nosso potencial de destruição e vandalismo de maneira inconsequente implica em outra coisa. Quando vândalos saem para causar dano ao patrimônio, seja público ou privado, então, estes não se encaixam em algum tipo de desobediência ou protesto civil, pois estão cometendo crime.

A função do Estado é reprimir o potencial de destruição anárquico do ser humano. “Os governantes não devem ser temidos, a não ser pelos que praticam o mal. Você quer viver livre do medo da autoridade? Pratique o bem” (Romanos 13. 3). Os principais reformadores eram defensores da submissão às autoridades, embora não irrestrita. Mas, eles conheciam o risco que é deixar poder demais concentrado nas mãos de uma só ou poucas pessoas. Lembro as palavras de João Calvino: “é por causa dos vícios ou imperfeições dos seres humanos que a mais tolerável e confiável forma de governo consiste em várias pessoas governarem [conjuntamente], cada uma auxiliando as outras e lembrando-lhes seu dever; de tal modo que, se algum deles elevar a si mesmo em demasia, os outros poderão agir como seus censores e senhores”.

Veja Também:

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