quarta-feira, 19 de junho de 2019
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quarta-feira, 25 de julho de 2018
Como Zaqueu...
Certo dia, Jericó entrou no itinerário de Jesus de Nazaré. O Evangelho de Lucas nos relata que Zaqueu, aquele publicano de baixa estatura física, também ficou muito curioso e desejava ver Jesus. Qual não deve ter sido o susto quando foi surpreendido, já lá em cima da árvore, com as palavras do mestre: “Zaqueu, desça depressa. Quero ficar em sua casa hoje” (Lucas 19. 5). A reação do povo apenas reforça que aquele cobrador de impostos não gozava de simpatia nas redondezas (Lc 19. 7).
Jesus passou algum tempo na casa de Zaqueu, alimentou-se, desfrutou da boa comida da mesa de Zaqueu. Quando finalmente voltou a aparecer em público, Jesus tinha um brilho no olhar. Demonstrava entusiasmo. Logo saiu a compartilhar com todos o quanto suas esperanças se renovaram com aquele maravilhoso encontro. Jesus dizia estar animado para compartilhar daquela esperança de Zaqueu com toda a palestina. Empolgado com o evangelho de Zaqueu, Jesus seguiu o seu caminho arregimentando discípulos pela causa libertadora que tiraria todos do jugo do Império Romano.
O que!? Qual é o problema, leitor? Você tem a impressão de que não foi assim que essa história de Jesus com Zaqueu terminou? Sim, você está certo. Leia Lucas 19. 1-10.
* O texto acima faz alusão e é inspirado num episódio ocorrido no dia 23 de julho de 2018. Um influente pastor luterano, da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, saiu entusiasmado da cela do ex-presidente Lula. O vídeo foi amplamente compartilhado e gerou uma série de manifestações contrárias e favoráveis nas redes sociais e outros fóruns de discussões.
sexta-feira, 8 de julho de 2016
O Cristão e as Ideologias
Como cristãos, sabemos que Deus é o criador de todas as coisas e que, por isso, podemos avaliar todas as coisas e reconhecer a verdade ali onde ela estiver. No caso das ideologias, todas elas, por partirem de algum fundamento isolado da criação de Deus, podem refletir alguma razão ou verdade.
A tradição cristã costuma revelar três formas distintas de relação com a cultura: 1) Contra a cultura; 2) Amigo da cultura; 3) Crítico à cultura.
O autor e cineasta Brian Godawa[1] chama a postura contrária a cultura de “anorexia cultural”, aquela postura de considerar tudo que não é “gospel” ou “evangélico” de mundano, logo, a pessoa não vê nenhum filme, não ouve nenhuma música, nada que seja “do mundo”. Com isso, não sabe aproveitar as coisas boas da vida, não se diverte, pois tudo o que é “do mundo” deve ser evitado. Isola-se num gueto.
Por outro lado, há o “glutão cultural” que é como Godawa chama o amigo da cultura. É aquele que cai de cabeça, não quer nem saber. Desliga todo e qualquer tipo de senso crítico. Vai consumindo música, filmes, espetáculos, tudo sem o mínimo discernimento. Ele é do tipo que quando alguém questiona, logo responde, “é só por lazer”, ou, “você leva tudo a sério demais”. São pessoas que ignoram que os artefatos culturais não gozam de neutralidade, que não servem apenas para entreter, mas, transmitem uma mensagem que, no final das contas, tem o objetivo de influenciar você.
Ambas as posturas são problemáticas. Como cristãos, somos chamados a examinar todas as coisas e reter o que é bom[2]. A relação que se espera de um cristão com a cultura a sua volta não é de simplesmente sair consumindo tudo acriticamente e, nem tampouco, evitar tudo ou até mesmo condenar todas as coisas como se fossem pecaminosas somente por não serem produção vinda de cristãos. Este é um princípio que deveria ser aplicado também ao lidarmos com as ideologias políticas.
Muitas pessoas cristãs acreditam que sua fé nada tem a ver com política. Devemos superar tal equívoco, pois, a postura contra a cultura reflete o falso pressuposto de que os reinos deste mundo pertencem a satanás[3]. Com isso, a tendência é o isolamento e a incapacidade de interagir e reconhecer que possa existir algo bom na cultura e nas ideologias e que, por isso, merecem reconhecimento e apoio.
Por outro lado, há o risco de um alinhamento político feito de maneira inadvertida. Essa tentativa de combinar a fé cristã com alguma ideologia sem uma análise crítica pode gerar sérios problemas e levar, até mesmo, a verdadeiras tiranias. Não deveríamos tomar as ideologias como se fossem simplesmente discursos neutros, algo que simplesmente se pode tomar sob o argumento de que “o que vale é a intenção”.
Uma primeira questão e que é chave para os cristãos que desejam nutrir uma correta relação com a cultura consiste em identificar as raízes religiosas das ideologias. Em outras palavras, é necessário identificar a cosmovisão por trás da cultura e das ideologias. Trata-se do que o filósofo David Koyzis chama de raízes espirituais das ideologias[4]. Somente ao atentarmos para isso seremos capazes de perceber que há uma verdadeira incompatibilidade entre os pressupostos religiosos das ideologias e os fundamentos do cristianismo bíblico.
Quando pensamos em ideologias políticas nos lembramos logo de governos, partidos políticos e sistemas jurídicos. Há, no entanto, uma diferença entre ideologias como o liberalismo e o socialismo, para as instituições como o governo e o sistema jurídico. Tal diferença consiste em dizer que tais instituições podem ser utilizadas para bem ou para mal, dependendo de qual direção a ideologia por trás daqueles que administram estas instituições desejam imprimir. Um socialista irá forçar o governo e criar uma proposta partidária diferente de alguém identificado com o liberalismo, por exemplo. A ideologia, assim, acaba sendo um meio para se alcançar determinado fim. Ao adotar inadvertidamente uma ideologia como meio para fins justificáveis, por mais nobres que estes fins pareçam à causa cristã, o que há, de fato, é idolatria.
Enfim, diante da complexidade da realidade à nossa volta, qual é a postura que os cristãos deveriam assumir? Já dissemos que é importante analisar tudo e reter o que é bom. Nem uma postura totalmente contrária e tampouco acrítica é desejável. Não podemos, no entanto, interagir e emitir juízos sobre qualquer ideologia sem conhece-las e identificar aquilo que reconhecem corretamente. Se o liberalismo defende os direitos humanos, nisso estão corretos. Se o conservadorismo defende a importância da tradição e da continuidade histórica, nisso eles acertam. Se os nacionalistas defendem a solidariedade comunitária entre aqueles que compartilham a mesma cidadania, ponto para eles. Se os socialistas pregam a equidade econômica, merecem todo o reconhecimento neste aspecto. O problema reside em tornar tais aspectos da realidade verdadeiros absolutos sobre os quais sustentam toda a ideologia. A deificação de um destes aspectos da realidade criada por Deus torna-se em idolatria que gera efeitos nefastos e, como todo ídolo, sacrifícios em nome da causa. Os regimes totalitários estão aí para comprovar isto. Cada ideologia, assim, produzirá seus próprios efeitos colaterais quando ignora a complexidade de uma realidade bem mais ampla.Como cristãos, enfim, reconhecemos que só há um absoluto e este é Deus. Todas as coisas foram por ele criadas e são, portanto, relativas. Não há nada que tomemos desta criação para promover como princípio absoluto que não irá chocar-se com a verdade bíblico cristã, pois constituir-se-á num ídolo concorrendo com o verdadeiro e único Deus.
A política é uma atividade humana. Cada ser humano, na perspectiva de uma cosmovisão cristã, é uma criatura de Deus e que vive no mundo criado por Deus. Sabemos disso porque a Bíblia o revela. Sabemos, ainda, que vivemos num mundo caído, afetado pelo pecado. Porém, Deus não nos deixa a mercê de nossa própria sorte. Ele vem, em Cristo Jesus, para redimir a humanidade. E, não só a humanidade, mas, todas as coisas[5]. Exatamente por isso os cristãos deveriam ser aqueles que mais se importam com este mundo criado por Deus. Isso implica em reconhecer que a cultura e a política também interessam a Deus e carecem de redenção.
Quando falamos que Deus é o criador de todas as coisas, a coerência nos leva a admitir também que existe uma ordem nesta criação. E, Deus permanece fiel a esta ordem com que ele criou as coisas. E, nós, os seres humanos, naturalmente seremos mais plenos e realizados se nos submetermos aos preceitos de Deus. A lei de Deus, portanto, não é imposta de forma arbitrária. Esta é uma interpretação que, no entanto, encontra resistência inclusive entre muitas pessoas que se confessam cristãs. O problema é que ao ignorar que Deus cria o mundo com ordem e normatividade perde-se todo e qualquer referencial. Ignora-se, por exemplo, que a função dos governantes é promover a justiça. Sim, entendemos que a promoção da justiça é um dever de cada ser humano a partir daquilo que o próprio Deus espera de nós. Como uma sociedade irá se organizar para buscar essa justiça é outro capítulo. Os meios para isso Deus não instituiu, pois esta é nossa responsabilidade. A promoção da justiça, no entanto, é uma ordem normativa da criação. Como a buscaremos fica sob a responsabilidade da criatividade e da liberdade humana. Cada contexto e realidade exigirá uma abordagem própria. Isso reconhecendo que, inclusive, há restrições à própria liberdade nesta ordem da criação.
Ignorar uma ordem normativa a partir da criação de Deus implicaria em considerar que toda e qualquer decisão humana se pauta sobre mera escolha ou preferência pessoal. Afinal de contas, o que sobraria quando não se pode reivindicar mais nenhum fundamento transcendental? Há quem argumente que restaria a vontade do mais forte, um poder soberano como uma construção social, um contrato, enfim.
Resta, ainda, uma pergunta honesta a ser enfrentada: se todos pecaram, como podemos ter acesso ao conhecimento que nos revela a correta ordem da criação de Deus? Como ter acesso e discernir o que é realmente fruto da boa vontade de Deus? A revelação geral de Deus nos permite dizer que em todas as épocas e em todos os lugares existe certa capacidade humana de reconhecer determinadas normas. Sem ignorar a realidade do pecado que nos confunde e, até mesmo cega, é fato que ao observarmos a cultura em diferentes lugares do mundo seremos capazes de notar certa tendência pela vida, pela justiça, pela cortesia, pelo discernimento entre o bem e o mal. Como tal revelação geral é ainda insuficiente, Deus faz uso também de uma revelação especial em Cristo Jesus.
Se a realidade está baseada nesta cosmovisão baseada na tríade criação-queda-redenção, logo perceberemos que as ideologias procuram oferecer a sua própria versão da realidade. Explicam a origem, os problemas e eventuais soluções a partir de outros pressupostos. Uma visão de mundo que parte do princípio de que tudo não passa de uma massa cósmica aleatória sobre a qual os seres humanos simplesmente impõem a sua vontade é bem diferente do que compreender que o mundo é uma boa e ordenada criação de um Deus de amor que nos colocou aqui com responsabilidades. Assim, cada ideologia reflete uma cosmovisão particular que está baseada em algum aspecto da criação, constituindo-se, assim, numa visão reducionista que não é capaz de dar conta da realidade como um todo.
O desafio consiste em buscar por uma abordagem social que seja biblicamente cristã e que, portanto, não seja idólatra. Se Deus é o único soberano, então, nenhum indivíduo na terra é soberano. A tradição tem o seu valor, mas, é marcada pela realidade do pecado. A comunidade humana é importante, mas, não digna de lealdade irrestrita. Governos podem ajudar a instaurar equidade econômica, mas, são limitados e não devemos depositar sobre ele as esperanças por resolverem todos os problemas. O fato é que a realidade apresenta a todos nós uma rica diversidade com que precisamos aprender a lidar por uma perspectiva cristã. Os condicionamentos geográficos, históricos, econômicos e políticos a que os seres humanos estão submetidos faz com que haja uma verdadeira pluralidade cultural no mundo. Cabe a um governo sob princípios cristãos reconhecer e proteger tal diversidade e, jamais impor apenas uma única noção de cultura. Tal postura confronta diretamente as ideologias que preferem impor seu credo baseado numa visão uniforme da realidade e que, por isso, procura moldar tudo a sua própria imagem. Como seres caídos, marcados pelo pecado, deveríamos nos conscientizar de que toda a nossa compreensão das coisas é parcial, logo, tomar a nossa verdade como se fosse toda a verdade obviamente resultará em problemas. Deus é uma unidade que cria um mundo complexo. Nós não temos condições de apreender toda a complexidade desta realidade.
Esta complexa realidade é composta por uma multiplicidade de esferas sociais ou comunidades diferentes em que os seres humanos vivem e exercem responsabilidades distintas. Em tal realidade somente Deus é soberano e absoluto. Qualquer tentativa de promover algo dentro desta realidade relativa à condição de fundamento configura idolatria. E, todo ídolo costuma exigir seus sacrifícios para que seus objetivos sejam atendidos. O problema com as ideologias é que quando elas reduzem seu sentido de ser a uma parte da criação, acabam negligenciando todo o restante e, assim, numa perspectiva reducionista, sua leitura da realidade acaba negligenciando outros aspectos desta realidade.
Concluindo, uma ideologia acaba por se identificar como idolatria na medida em que ignora a criação de Deus e apega-se a um fragmento desta criação, identificando neste fragmento o fundamento que confere sentido e razão para a leitura de toda a realidade mais ampla. Uma ideologia, portanto, apesar de conter verdade, pois baseia-se em aspectos da realidade, é incapaz de cumprir o que promete, afinal, reflete uma visão reduzida que nega as diferenças e sacrifica a diversidade do mundo criado em nome de uma unidade idólatra[6].
[1] GODAWA, Brian. Cinema e Fé Cristã: vendo filmes com sabedoria e discernimento. Viçosa: Ultimado, 2004. p. 13-22.
[2] I Tessalonicenses 5. 21.
[3] Lucas 4. 6.
[4] KOYZIS, David. Visões e Ilusões Políticas: uma análise e crítica cristã das ideologias contemporâneas. São Paulo: Vida Nova, 2014. p. 225.
[5] Colossenses 1. 19-20.
[6] KOYZIS, 2014, p. 54.
quarta-feira, 6 de julho de 2016
IDEOlatria
Como cristãos costumamos dizer que a bíblia é o nosso parâmetro. A questão, no entanto, é: temos lido as escrituras de modo que ela ilumine nossa vida? Ou temos deixado que nossos próprios “óculos” culturais e ideológicos determinem a nossa leitura? Não há como evitar que a nossa história e o nosso contexto influenciem a leitura da realidade e da própria bíblia. Como cristãos, no entanto, deveríamos ser, acima de tudo, desconfiados a nosso próprio respeito. Vivemos um tempo em que parece ter ficado muito fácil lançar “verdades” ao vento e nos comportamos como donos desta verdade. Essa mesma bíblia que prezamos tanto, porém, adverte de que “o coração é mais enganoso que qualquer outra coisa e sua doença é incurável. Quem é capaz de compreendê-lo?” (Jr 17.9).
Uma ideologia pode, sim, ser capaz de identificar questões legítimas e até mesmo defender questões justas. O problema está em o quanto as pessoas podem confiar sua lealdade a ponto de tornarem-se cegas. É quando uma ideologia se torna um ídolo. Jesus nos adverte de que não se pode servir a dois senhores (Mt 6.24). Se tomarmos uma ideologia como digna representante que dá conta de explicar toda a complexa realidade da vida, então, estamos falando de um absoluto que substituiu o próprio Deus. E, para nós, cristãos, Deus é o único absoluto. Ele é o criador de todas as coisas. Logo, tudo abaixo dele é relativizado e passível de dúvida e questionamento, especialmente depois da queda, realidade em que nos encontramos todos (Rm 3.23).
Cada ideologia apresenta aspectos que legitimamente podemos reconhecer e valorizar. O problema está em promover este elemento como sendo aquele que confere sentido para tudo o mais. Sempre que atribuímos divindade a qualquer aspecto isolado da criação de Deus e fazemos a leitura da realidade a partir disso, corremos o risco de nos tornamos totalitários, contribuindo para a injustiça. A história da humanidade está repleta de exemplos de como regimes fundamentados numa ideologia radical levaram desde à fragmentação social até mesmo à grandes genocídios. O remédio está em nos conscientizarmos de que Deus é Deus e tudo o mais depende dele. Deus é o Criador, nós somos as suas criaturas. Não vamos nos dobrar diante de ídolos feitos por mãos ou mentes humanas! (Ex 20.3).
segunda-feira, 21 de março de 2016
Um Corrupto Entre os Discípulos
O Brasil vive mais um período difícil de sua história. Em meio a uma grande operação investigativa, há muitas acusações, delações, batalhas judiciais e políticas. Pessoas com muito dinheiro e acostumadas ao poder estão sendo expostas e até mesmo presas. Diante do noticiário nem sempre é fácil saber onde está a verdade, qual a versão mais condizente, qual posição tomar frente aos acontecimentos. Uma questão pertinente a ser lembrada é que a corrupção não se localiza em partidos políticos, não é privilégio de apenas uma ou outra ideologia, não poupa religiões, gera escândalo em toda parte. O realismo bíblico explica que não são instituições impessoais, sistemas abstratos ou movimentos ideológico-partidários que, a priori, geram a corrupção. É verdade que cada uma destas, dependendo de como se organiza, pode potencializar o mal. As Escrituras ensinam que “não há distinção, pois todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus” (Romanos 3:22-23). Corrupção é coisa do ser humano. “O coração é mais enganoso que qualquer outra coisa e sua doença é incurável. Quem é capaz de compreendê-lo?” (Jeremias 17.9).
Não sejamos, pois ingênuos. O próprio Jesus sabia muito bem dessa disposição humana para o mal. Havia entre os doze discípulos, que ele havia escolhido a dedo, também um que deu vazão a toda corrupção do coração. É verdade que o potencial da corrupção estava em todos eles. Todos cometiam seus erros. Uma coisa, porém, é errar, cometer equívocos, reconhecer, fazer a autocrítica, aceitar admoestações e corrigir o caminho. Havia um, no entanto, que não se permitia um coração quebrantado e humilde. Além de ser conhecido na história como aquele que traiu Jesus por um punhado de moedas, Judas era um corrupto entre os doze. Ele tinha a sua própria agenda paralela a tudo aquilo que Jesus estava propondo. Mais uma vez é preciso admitir que essa agenda paralela também pode ser identificada nas palavras e atitudes dos demais discípulos. Estes, porém, deixaram-se orientar e terminaram os dias como mártires da causa do evangelho. Não foi o caso de Judas Iscariotes.
Uma semana antes da páscoa judaica Jesus estava numa casa quando foi surpreendido pelo gesto de uma mulher. Ela começou a ungir Jesus despejando sobre ele um perfume caríssimo. Diante da cena um dos discípulos de Jesus se apressa em protestar: “Por que isso!? Este perfume é caríssimo, veja a marca, poderia ser vendido facilmente por mais de trinta mil reais. Teríamos, assim, um bom dinheiro para ajudar os pobres!” (João 12. 5). Jesus repreende Judas afirmando que ele não entendia o que realmente estava acontecendo (João 12.7-8). Há, porém, uma denúncia de João a respeito de Judas que Jesus, naquele momento, não deixa claro. O autor do relato afirma que Judas não dizia aquilo protestando porque realmente se importava com os pobres, mas porque era ladrão. Judas era o tesoureiro do grupo e costumava se apropriar indevidamente do dinheiro que guardava (João 12.6). Fazia o discurso em favor do pobre porque isso propiciava oportunidades de levar vantagem.
O que nós, hoje, podemos aprender deste relato bíblico? Primeiro que Jesus conhece bem aqueles que afirmam estar com ele e defender a sua causa. Não deveria ser, portanto, espanto para a igreja e os cristãos que haja aproveitadores, traidores e corruptos entre eles. Isso nunca foi novidade. O relato bíblico e a história o revelam. Cabe a admoestação, a repreensão e o chamado ao arrependimento e à mudança de rumo. Uma segunda e importante lição é que o discurso em favor do pobre também sempre foi utilizado para encobrir intenções escusas. Políticas sociais e iniciativas a favor dos mais necessitados costumam sensibilizar corações e gerar arrecadação de fundos que, lamentavelmente, costumam ser desviados pela corrupção. A instrumentalização da pobreza é comum no meio político para gerar votos e financiar projetos de poder.
Em meio aos escândalos, denúncias de corrupção, desvios e tudo aquilo que contribui para o que costumamos escutar como crise política e econômica, muitos cristãos, confusos, mas, bem intencionados, se apressam em tomar partido. Cientes de que, sim, os cristãos e a igreja são chamados a defender a causa da viúva, do órfão e do estrangeiro (Deuteronômio 27.19), como encontramos em todo o Antigo e Novo testamento, tendemos a aderir facilmente ao discurso pela causa do pobre. O risco em meio a tudo isso é de nos esquecermos de que a causa do evangelho - o amor e a misericórdia, o cuidado com o necessitado - é anterior às ideologias modernas. Cuidemos, pois, para não nos encontramos ostentando a bandeira do evangelho ao mesmo tempo em que, equivocadamente, nos colocamos ao lado da injustiça. Mesmo que seja legítimo o envolvimento político-partidário, bem como a adesão às causas e movimentos organizados, o cristão possui fundamento e motivação na causa contra a injustiça que é anterior e está acima de todas as disputas humanas.
Antes, portanto, de qualquer adesão cega às ideologia humanas, cuidemos para não nos encontrarmos legitimando atos de corrupção sob o argumento da promoção da justiça em favor dos mais pobres. Não nos deixemos seduzir e assumir, assim, o slogan de que “os fins justificam os meios”. Estes meios, muitas vezes, podem causar mais dor, maldade e injustiça do que o fim pretensamente nobre. Antes, portanto, de entramos em acaloradas discussões envolvendo ideologias políticas ou famosas figuras do cenário político, peçamos sabedoria e discernimento a Deus. Oremos, inclusive pelos adversários. Calemos e não nos precipitemos! Não devemos nos omitir, é verdade. Mas, também não há motivo para palavras e gestos afoitos. Que mesmo quando uma palavra mais dura for necessária, que seja o último recurso. Como pessoas reconciliadas com Deus, somos feitos seus embaixadores para vivermos de tal modo que nosso testemunho sirva de luz àqueles que praticam a injustiça.
quinta-feira, 2 de julho de 2015
Orem e Trabalhem Pelo Melhor!
O desejo de que as pessoas se envolvam com este mundo e assumam a sua responsabilidade por uma vida melhor está evidenciado em outras passagens da Bíblia. Enquanto o povo de Deus estava em terra estrangeira, exilado e oprimido, a palavra de Deus para eles foi esta: "Construam casas e habitem nelas; plantem jardins e comam de seus frutos. Casem-se e tenham filhos e filhas; escolham mulheres para casar-se com seus filhos e deem as suas filhas em casamento, para que também tenham filhos e filhas. Multipliquem-se e não diminuam. Busquem a prosperidade da cidade para a qual eu os deportei e orem ao Senhor em favor dela, porque a prosperidade de vocês depende da prosperidade dela" (Jeremias 29:5-7).
Enquanto somos estrangeiros neste mundo, há muito que fazer, portanto. De que forma nós estamos envolvidos com a nossa cidade, lutando para sua prosperidade? Temos nos lembrado de orar por nossa cidade, estado e nação? Que tipo de embaixadores do reino de Deus os cristãos tem sido no mundo? Não basta apenas criticar os outros, importa começar por mim!
sexta-feira, 6 de março de 2015
Pessoas, Poderes e Autoridades
Basta um olhar mais atento para perceber que parece ser o contrário. Se os políticos não estão ainda pior, no mínimo, também não temos muita melhora (embora, quando se trata das pessoas envolvidas na política, existam obviamente exceções). A defesa apaixonada de políticos através de eventos, passeatas e manifestações na internet (desde redes sociais, blogues, sites de notícias, etc.) não costuma revelar uma análise coerente, pormenorizada, atenta às ideias e projetos (novamente reconhecemos as exceções). As redes sociais contribuíram para o fenômeno que faz com que as pessoas apenas precisem gostar de determinado tema e debater sobre ele para considerarem-se especialistas (cá estou eu, dando uma de... rs...). Não que seja errado ou um crime emitir opiniões. O que assusta mesmo não é isso. Pois, discordância, discussões acaloradas, debates e conversas sobre temas diversos do cotidiano sempre estiveram presentes nas rodas de boteco e outros fóruns populares. Embora não livre de certas exaltações e, até mesmo, atitudes mais radicais de violência, estas rodas da vida real permitiam uma proximidade com a própria realidade, com o outro de carne e osso, o olho no olho. No mundo virtual, devido a impessoalidade e consciência de não ser responsabilizado de forma mais direta, a violência e agressividade tornam-se mais evidentes.
Quando deixamos de ver o outro como pessoa, um ser humano, alguém criado à imagem e semelhança de Deus como eu mesmo o sou, para ver apenas a camiseta estampada, a bandeira empunhada, o discurso ideológico proclamado, e tantos rótulos que saltam de nossos teclados sem nem ao menos refletirmos sobre o que estamos atribuindo apressadamente ao “oponente”, então, um sinal de alerta deveria soar. Pode ser que alguma espécie de fanatismo já esteja nos dominando de tal forma que nossa luta passou, sim, a ser contra carne e sangue, em favor de potestades e dominadores deste mundo (Efésios 6. 12) que cativaram nossos corações de tal forma que não mais nos importamos em sacrificar família, amigos, enfim, seres humanos no altar de algum ídolo que nos escravizou. Se ainda nos resta algum sinal de lucidez, oremos para que Deus nos conserve humanos, sensíveis, e, com algum discernimento. Além se sermos seres humanos criados à imagem e semelhança de Deus, a cosmovisão cristã revela também que o pecado corrompeu a boa criação de Deus. Assim, somos todos carentes da graça e da misericórdia do Senhor.Cientes da soberania de Deus, cuidemos para não absolutizarmos nossas convicções a tal ponto de não mais conseguirmos escutar, ponderar, refletir e, quem sabe, admitir que não somos os donos da verdade. Quem sabe, estejamos, sim, equivocados. Talvez eu mesmo, com este texto, esteja. O que importa, não é se devo ou não me manifestar, mas, o quanto estou também disposto a deixar que esta minha posição, tornada, agora, pública, possa sofrer, críticas, questionamentos, correções. Tudo isso, sem que eu considere o autor das opiniões contrárias um inimigo, mas, tão somente, um instrumento de Deus nesta confusa peregrinação humana onde, muitas vezes, não passamos de cegos querendo guiar outros... Neste sentido, sim, mas, sem querer justificar ninguém com isso, nossos políticos são reflexo daquilo que somos todos, enquanto indivíduos falhos, propensos a escorregar, corromper, fraudar, tirar vantagem, legislar em causa própria. A pergunta que fica, portanto, é: Como organizar uma estrutura e processos que protejam os cidadãos de si mesmos? A quem ainda prestamos conta!?
terça-feira, 18 de junho de 2013
O Brasil Em Ebulição
Os governantes, num país democrático, são eleitos para cargos específicos e devem atender a objetivos bem concretos. Quando estes não cumprem aquilo para o que foram eleitos, a população tem todo o direito de se manifestar. A violência e o vandalismo devem ser repudiados. Dentre as expectativas pelo desdobramento das manifestações vislumbra-se um ano de eleições em 2014. Será que tudo isso repercutirá nas urnas? Pois é fato que muitos dos que hoje ocupam cargos nas diversas esferas de poder precisam ser retirados de lá. As vultosas quantias de dinheiro que são desviados com a corrupção poderiam garantir melhores condições de saúde, educação, segurança e transporte. Aliás, o discurso sobre a falta de recursos para estas questões básicas em contraste com os bilhões gastos para construir estádios suntuosos Brasil afora, soou como um despertador para um país que repousava em berço esplêndido.
A revolução dos vinte centavos extrapolou para uma pauta mais ampla. O perigo é se perder em generalizações e questões intangíveis que dispersam. Também não faltarão aqueles para se aproveitar do momento. Muitos oportunistas tentando se promover à custa! É quase impossível evitar algumas anomalias deste tipo bem como aqueles que saem para depredar o patrimônio público. Existe um risco sempre presente em grandes aglomerações. Mas, se o movimento ainda não mobilizou ao patamar das “Diretas Já” de 1984 ou dos “Caras Pintadas” pelo impeachment de Fernando Collor em 1992, é fato que a mobilização popular volta a pressionar. A primeira eleição direta após a ditadura não foi imediata. E, quando ocorreu, elegeu Collor. Estaríamos demonstrando que estamos aprendendo mais algumas lições sobre democracia?
terça-feira, 23 de outubro de 2012
O Que é Um Voto Consciente?
Talvez encontremos aqueles que acreditam que um governante cristão ou evangélico seria a solução. Eu já penso que isso não garante nada. Precisamos é de pessoas competentes e comprometidas. O fato de alguém ser cristão ou evangélico não lhe credencia como melhor político ou como alguém que está livre de cair na mesma tentação que qualquer outro. Portanto, não me iludo. O apóstolo Paulo nos chama à realidade: “Não há distinção, pois todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus” (Romanos 3:22-23). Alguém já disse que a linha entre o bem e o mal não está entre você e eu, mas, passa pelo coração de cada ser humano. Não deveríamos, portanto, nos deixar levar tão facilmente pelas paixões que nos colocam em disputas e campanhas maniqueístas como se tudo fosse apenas “preto e branco”. É emblemático quando ouvimos alguém dizer que está “torcendo” para que determinado candidato vença as eleições ou, quando pessoas comuns chegam a brigar por causa de preferências políticas. Geralmente, estes desconhecem as propostas daquele a quem apoiam, mas, sabem muito bem desqualificar o “inimigo”.
Tive a oportunidade de dizer a um prefeito eleito no último pleito que agora ele ganhará diversos amigos até assumir efetivamente o cargo. E, depois de eleito, ganhará muitos inimigos. Quando os discípulos de Jesus sentiram que se aproximava o momento de tomar o poder (era isso que muitos pensavam que ia acontecer), dois deles vieram com um pedido especial. Um queria estar à direita e outro à esquerda do grande rei quando este finalmente se sentasse no trono. A resposta de Jesus nos ajuda a compreender como as coisas são e como deveriam ser entre aqueles que temem a Deus: "Vocês sabem que os governantes das nações as dominam, e as pessoas importantes exercem poder sobre elas. Não será assim entre vocês. Pelo contrário, quem quiser tornar-se importante entre vocês deverá ser servo” (Mateus 20:25-26). Quando os nossos políticos compreenderem que foram colocados em seus cargos para servir, então, sim, finalmente teremos governantes dignos e nosso respeito e admiração!
domingo, 25 de março de 2012
Evangelização e Proselitismo
Toda a realidade que conhecemos consiste em discursos que concorrem para persuadir os ouvintes. Portanto, cada um de nós, todos os dias, está sendo “evangelizado”. Você é evangelizado enquanto assiste à novela ou a um filme, enquanto lê um jornal, livro ou revista. Você é evangelizado pelo seu professor, pelos seus amigos, pelos sites que visita e lê, pelas propagandas e, até, pelas mensagens religiosas, sejam quais forem. Toda mensagem trás uma intenção proposital de convencer sobre algo. Tudo o que você escuta o tempo inteiro é um discurso tentando persuadi-lo para uma visão de mundo ou, uma verdade. Não existe campo neutro. Pois todo portador de uma mensagem está religiosamente comprometido com uma visão de mundo e de realidade. As pessoas “evangelizam” porque acreditam piamente naquela verdade ou porque podem obter alguma vantagem com isso. Logo, esse esforço de persuasão pode ter intenções nobres (conheço algo, sei de uma coisa que pode ser libertador e quero que outros experimentem isso) ou, não tão nobres (enganar para obter vantagem à custa dos outros).Agora, pensemos: sempre que você discorda de alguém e, até o acusa de proselitismo, o que está em jogo é uma postura, uma ideia, uma proposta diferente e com a qual, geralmente, você não concorda. Ao discordar, porém, e rotular o outro de proselitista, você não estaria agindo pelas mesmas motivações? Ou seja, em vez de ser aquele que “chega” à posição do outro você, na verdade, gostaria que o outro “chegasse” à posição que você sustenta. Dificilmente alguém que está convencido de uma verdade deixará de se esforçar para convencer outros sobre essa verdade, mesmo que esta verdade consista na máxima de que não existe verdade. Ah! Você acabou de ser “evangelizado”... de novo!
segunda-feira, 11 de janeiro de 2010
Reinos, Gerações, História, Pão e Circo
Conta a história que a fundação da Roma Antiga (753 a.C a 509 a.C) resulta da mistura de três povos que foram habitar a península itálica: gregos, etruscos e italiotas. O povo brasileiro é uma mistura de descendentes europeus, africanos e índios. Na Roma antiga a religião era politeísta, com deuses semelhantes aos dos gregos, porém com nomes diferentes. O Brasil apresenta um pluralismo religioso. Os principais deuses romanos eram Júpiter, Juno, Apolo, Marte, Diana, Vênus, Ceres e Baco. No Brasil tem Aparecida, Padre Cícero, frei Damião, Madre Paulina, Senhora de Navegantes, Mídia, Pornografia, e, pasmem, até Jesus.Como todo império Roma vivia para conquistar. Assim, a vida e a estrutura de Roma passaram por significativas mudanças. O império passou a ser muito mais comercial do que agrário. Com o crescimento urbano vieram também os problemas sociais. A escravidão gerou muito desemprego na zona rural, muitos camponeses perderam seus empregos. Esta massa de desempregados migrou para as cidades romanas em busca de trabalho e melhores condições de vida. Com medo de que pudesse acontecer alguma revolta de desempregados, o imperador criou a política do Pão e Circo - oferecer aos romanos alimentação e diversão. Para os imperadores era disso que o povo precisava. Quase todos os dias ocorriam lutas de gladiadores nos estádios, onde eram distribuídos alimentos. O coliseu de Roma era uma espécie de Maracanã. Assim, o MST ficou para mais tarde. A população carente acabava esquecendo os problemas da vida, diminuindo as chances de revolta. No Brasil, a política ‘pão e circo’ é reproduzida como, talvez, nunca antes na história: bolsa família e copa do mundo de futebol.
Enquanto a cultura romana foi muito influenciada pela cultura grega, o Brasil vive da cultura de entretenimento americana. Se o império romano caiu, muitos dizem que a vez dos EUA está chegando. Hoje vivemos a aldeia global. Não existe mais um império que se mede pela expansão geográfica apenas. É cada vez mais estranho pensar em um país impondo-se como um império mundial. Fato é que a estratégia é a mesma: "pão e circo". Circo através da mídia e, pão...!? Bem, digamos que enquanto houver bolsa, vale e assistencialismo social por parte de governos, ONGs e empresas, ta garantido. Mas, nem só de pão e circo viverá o povo. E, vamos sobrevivendo. Mas o fato é que existe uma tal de vida em abundância da qual falou um galileu dos tempos do Império Romano. Você já sonhou com algo mais? Jesus também falou em um novo Reino... Gerações vêm e gerações vão... O que restará!?
terça-feira, 30 de setembro de 2008
Política se discute?
Ou se aceita e pronto!?
Um dos livros pouco explorados no Antigo Testamento bíblico é Juízes. O texto relata o período que vai da morte de Josué (sucessor de Moisés) até a unção de Saul como o primeiro rei de Israel. Neste período Israel não era organizado politicamente nem socialmente como nação. Viviam como tribos que cultivavam a terra e criavam rebanhos.
Juízes relata acontecimentos envolvendo o povo de Israel durante um período em que eles ainda não eram uma monarquia. A autoridade dos juízes, na maioria das vezes, limitou-se a áreas específicas. Eles não foram reis, mas, heróis locais que livraram porções do território de Israel dos seus opressores estrangeiros. Um famoso Juíz em Israel foi Gideão. Sua trajetória ficou marcada por sua recusa ao oferecimento de ser rei em Israel.
Eram tempos difíceis, de muito conflito, guerras e morte. Se Gideão repeliu o desejo do povo de fazê-lo rei, o mesmo não aconteceu com seu filho ilegítimo Abimeleque. Para isso, ele encomendou a morte de todos os demais descendentes de Gideão que poderiam representar alguma ameaça aos seus planos. De um total de setenta, apenas Jotão conseguiu escapar da chacina. Abimeleque não pode ser considerado o primeiro rei de Israel, uma vez que seu domínio se estendeu apenas sobre algumas poucas aldeias e povoados ao redor. A monarquia em Israel seria estabelecida somente mais tarde com Saul, Davi e Salomão.
Jotão, o filho caçula de Gideão que havia escapado à matança, decide então compor uma parábola ou alegoria que ilustrava o que havia acontecido. Do topo de um monte ele surge declamando sua fábula com o objetivo de advertir o povo contra o reinado de seu cruel irmão Abimeleque: “Certo dia as árvores saíram para ungir um rei para si. Disseram à oliveira: ‘Seja o nosso rei!’ A oliveira, porém, respondeu: ‘Deveria eu renunciar ao meu azeite, com o qual se presta honra aos deuses e aos homens, para dominar sobre as árvores?’ Então as árvores disseram à figueira: ‘Venha ser o nosso rei!’ A figueira, porém, respondeu: ‘Deveria eu renunciar ao meu fruto saboroso e doce, para dominar sobre as árvores?’ Depois as árvores disseram à videira: ‘Venha ser o nosso rei!’ A videira, porém, respondeu: ‘Deveria eu renunciar ao meu vinho, que alegra os deuses e os homens, para ter domínio sobre as árvores?’ Finalmente todas as árvores disseram ao espinheiro: ‘Venha ser o nosso rei!’ O espinheiro disse às árvores: ‘Se querem realmente ungir-me rei sobre vocês, venham abrigar-se à minha sombra; do contrário, sairá fogo do espinheiro e consumirá até os cedros do Líbano!’” (Juízes 9. 8 – 15).
segunda-feira, 23 de junho de 2008
Eleições 2008
Palavra aos Candidatos
Assim como me dirigi aos eleitores, o faço agora aos candidatos a prefeito e vereadores. Façam uma campanha responsável! Mostre que você realmente pensa na população da tua cidade antes mesmo de tomar posse. Não gaste dinheiro com cartazes, santinhos e cabos eleitorais agitando bandeiras esdrúxulas importunando os motoristas nas sinaleiras. Não contribua para sujar ainda mais as ruas da cidade. Evite a poluição sonora com carros de som que só tiram o sossego da população. Poupe os nossos ouvidos daquelas típicas ‘músicas’ óbvias e de extremo mau gosto. Não perca o seu tempo com promessas que você não pode cumprir. Não perca tempo também prometendo aquilo que você já sabe que não vai cumprir. Evite passeatas e correrias onde dá para no máximo apertar a mão de algumas centenas de pessoas. Poupe-se das cenas patéticas que possam render fotos e imagens onde você aparece abraçando velhinhos e pegando crianças no colo. Teu sorriso amarelo te denuncia. Se não puder ser autêntico procure descobrir qual é a tua real vocação. Pare um pouco e reflita: quais são as reais motivações que te levam a concorrer nessas eleições?
Evite os clichês tão manjados das campanhas eleitorais. Use a criatividade. Saia às ruas, encontre as pessoas, ouça aquilo que elas têm a dizer. Até o dia das eleições os senhores têm bastante tempo para isso. Ande mais a pé. Freqüente locais públicos. Esteja sinceramente interessado no bem comum. Procure identificar os dilemas reais da população. Pense mais nas pessoas do que no dinheiro que pode ganhar se eleito.
Aproveite o horário de propaganda gratuita no rádio e na televisão para te tornar conhecido. Apresente-se, conte a tua história, manifeste a tua proposta, exponha as tuas idéias. Evite entrar na onda das acusações e troca de insultos com outros candidatos. Se todos desejam o bem do povo, o inimigo real são todos os problemas que assolam a cidade. Procure ter clareza quanto aos verdadeiros alvos a serem atacados. Mas, cuidado, não basta apontar os problemas. Isso é a coisa mais fácil de fazer. As dificuldades, problemas e desafios estão todos bem à nossa frente. O que a cidade precisa e a população clama é por soluções. Quais são as tuas propostas? E, como pretende implementá-las?
Se for imprimir algum material, limite-se a um relato breve da tua história, apresente as tuas idéias e propostas. Procure conhecer e divulgar também o teu partido político. Ajude o eleitor a conhecer os princípios dos partidos para que a escolha dos candidatos não seja meramente personalista. Tenha clareza quanto ao que deseja fazer se eleito e como pretende contribuir de fato para o bem real de toda a cidade e seus habitantes.
terça-feira, 17 de junho de 2008
Eleições 2008
Palavra ao Eleitor
Mais um ano de eleições municipais. Quero arriscar-me a contribuir com algumas reflexões e sugestões ao eleitor. Primeiro, não deixe de votar; Vote em pessoas conhecidas. Eleições municipais permitem isso. Se não conhece ninguém se esforce para conhecer, afinal, todos os candidatos vivem na mesma cidade que você. Caso algum candidato more em outra cidade, com isso já se desqualifica; Não vote em ninguém que prometa coisas grandes e genéricas como melhorar a educação, reduzir a criminalidade, acabar com a pobreza, resolver o problema da saúde e etc. Nenhum prefeito ou vereador vai poder cumprir esse tipo de promessa. Exija propostas concretas. Medidas simples, mas eficazes. Passos pequenos, mas realistas. Pergunte sempre Como e até quando.
Não vote em quem gasta dinheiro com faixas, cartazes e santinhos que servem apenas para sujar ainda mais as nossas ruas. Quem desperdiça dinheiro assim na campanha imagine o que não faz com o dinheiro público que deveria ser investido no bem da população!?; Não vote no político profissional. Aqueles que estão a 20, 30 anos no poder e nunca fizeram nada de significativo para a sua cidade. Basta olhar para a sujeira nas ruas, os buracos e falta de calçamento, esgoto correndo a céu aberto, etc. Será que o político profissional nunca viu nenhum desses problemas? Ou será que nunca ninguém reclamou sobre isso com ele? Ora, se nunca fez não será agora que vai fazer alguma coisa pela cidade.
Descubra quem banca as campanhas dos candidatos. Infelizmente, a maioria dos favoritos a vencer as eleições tem suas campanhas financiadas por empresários, investidores, grupos que vão cobrar o apoio depois. Por isso, temos os políticos com ‘rabo preso’. Não podem governar para o povo, mas apenas para beneficiar este ou aquele grupo com quem tem o conchavo. Não preciso nem dizer que este candidato deve ser rejeitado; Não vote num candidato só porque ele é da sua igreja, do seu clube ou da sua associação. O candidato que pede o seu voto com esse tipo de argumento já assinou seu atestado de incompetência; Não venda o seu voto. Caso algum político corrupto lhe ofereça algo pra obter o seu voto você já sabe como ele vai agir quando eleito: vai comprar tudo o que puder para chegar onde quer. Denuncie! Muita gente também vê na carreira política um meio para empregar familiares e parentes. Não vote promovendo o nepotismo!
Ah! Assista alguns programas do horário eleitoral gratuito. Mas, não acredite em tudo o que você vê ou escuta na mídia. Só lembrando que pelo Brasil afora grandes grupos de comunicação estão nas mãos de políticos. Também não vote em ninguém que você desconfie ter preparado o típico discurso que o eleitor quer ouvir. Por exemplo: alguém que leia esse artigo e venha querer ganhar o meu voto com um discurso que repete tudo o que eu escrevi aqui. E, não, eu não sou candidato! Mas, com certeza comparecerei às urnas.
quarta-feira, 23 de janeiro de 2008
O religioso, a política e o cotidiano...
e toda cidade ou casa dividida contra si mesma não subsistirá”
Há poucos dias um suplente abaixou as calças. Agora, o episódio do exorcismo na Câmara de vereadores de Pelotas ganhou repercussão nacional. Um pequeno caixão foi encontrado no porão da Casa Legislativa. Bruxaria? Vodu? Magia negra? O trabalho consistia em um caixão preto de
A influência da religião na vida do brasileiro é evidente. Em Pelotas não é diferente. Os programas de televisão e rádio, os rituais e oferendas nos cruzamentos da cidade, as inúmeras igrejas, templos, centros e terreiros reforçam isso. E, os políticos também acabam envolvidos na confusão religiosa. Não é apenas um privilégio da cidade de Pelotas. Diante de tantas propostas e discursos a confusão parece atingir pessoas de todos os âmbitos e lugares. Com isso, a maior parte da população fica refém dos gurus, mestres e tantos auto intitulados líderes espirituais. Muitos desses, claro, enxergam nisso uma bela oportunidade de negócio para obter dinheiro e poder.
O que o cristianismo teria a dizer sobre o ocorrido? De acordo com o figurino ‘Inri Cristo’ e uma fala do vereador, ele se declara cristão. Estranho então ele buscar consultoria na magia negra para combater aquilo que considerou magia negra. Nas palavras de Jesus: “Todo reino dividido contra si mesmo será arruinado, e toda cidade ou casa dividida contra si mesma não subsistirá” (Mateus 12. 25). Os cristãos são seguidores de Jesus Cristo e tem a Bíblia como livro base da fé. Deus criou todas as coisas. Na cruz Jesus derrotou definitivamente todo e qualquer poderio do diabo sobre os crentes. Objetos, animais, fotografias, pés de coelho, plantas, astros, etc., nada disso é maior ou possui poder em si maior do que o poder que tudo criou.
Logo, senhores vereadores, abaixar as calças em público e exorcismos mambembes não vão ajudar muito. Como cristãos, depositem a sua fé e esperança no Senhor do universo e descansem. “Entregue o seu caminho ao SENHOR; confie nele, e ele agirá” (Salmo 37. 5). Preocupem-se em legislar para o bem público. Assim, os senhores estarão quebrando muitas maldições reais que assolam a população de nossa cidade.








