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segunda-feira, 28 de abril de 2014

Quando a Igreja Deixa de Ser Igreja

Vez e outra nos deparamos com questões referentes à natureza da igreja e todas as questões que envolvem a sua organização. Não é necessário dizer muito mais sobre a diferença entre as instituições eclesiásticas, as igrejas locais e a diferença destas para o verdadeiro corpo de Cristo, a comunhão dos santos. É inevitável para nós, seres humanos, criarmos algum tipo de estrutura para nos organizarmos em sociedade. Assim como na política, na educação, na arte, na economia e etc., também sobre questões de fé temos nos organizado de diferentes maneiras. Por isso, além de utilizarmos o termo 'igreja' para designar os cristãos, aqueles que creem, que seguem Jesus Cristo como Senhor e Salvador, igreja é também uma forma de organização. Daí surgiram as denominações e é também como nos referimos às comunidades locais. A Igreja Católica Apostólica Romana, por exemplo, é uma denominação, assim como a Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, a Igreja Presbiteriana Independente do Brasil, a Igreja do Evangelho Quadrangular e etc. Essas denominações estão espalhadas e organizadas pelo Brasil nas suas diversas paróquias, comunidades, congregações, células e etc. Estas comunidades e congregações locais são, também, chamadas de igrejas. São, portanto, igrejas completas, uma igreja local é templo de Deus. Há ainda uma outra utilização da palavra igreja como referindo-se ao templo ou prédio. Portanto, é comum ouvir alguém dizendo que vai à igreja no domingo à noite.

É importante que tenhamos isso em mente para que não façamos leituras equivocadas quanto ao propósito e razão de ser da igreja. Quando surge uma comunidade como uma igreja local, temos ali, um grupo, uma pequena "igreja" que se encontra a fim de celebrar, adorar a Deus, cultivar a comunhão entre os irmãos, vivenciar a fé, prestar auxílio e servir. A pregação da Palavra de Deus e a ministração dos Sacramentos (batismo e santa ceia) são as marcas centrais da igreja, especialmente na tradição protestante. O propósito central da igreja, neste sentido, portanto, é fortalecer a fé dos fiéis, anunciar a palavra da graça de Deus, convidar a todos para que se arrependam e creiam no evangelho da salvação. Só isto já justifica a existência da igreja e constitui sua relevância social e espiritual na sociedade.

Como organização (internacional, nacional ou local), as igrejas precisam de uma estrutura mínima para que se organizem e atuem como corpo de Cristo na pregação da Palavra e ações de misericórdia. A questão fundamental aqui é que a estrutura deve estar sempre a serviço desta missão da igreja e nunca o contrário. Quando isso é mantido na perspectiva correta, então, não haverá crise ou grandes conflitos a cada vez que a estrutura tiver que ser modificada, reformada e adaptada. A estrutura, diferente do evangelho, é circunstancial, temporária, útil enquanto servir aos propósitos da igreja. Portanto, nenhuma estrutura pode ser sacralizada, tornando-se um fim em si mesma. O propósito da organização, da estrutura, é servir à igreja, é favorecer a missão da Igreja, é ser um vaso de barro, um instrumento, um meio. E, como tal, deve estar sempre sujeito à revisão, reforma, adaptação, e, até, extinção. Extinguir uma instituição não significa, jamais, extinguir a Igreja ou uma igreja. Portanto, é sábio que toda forma de organização eclesiástica, bem como suas programações, podem e devem ser constantemente avaliadas, remodeladas e melhoradas. Lembrando sempre, é claro, que a organização visível em algum tipo de instituição é inevitável!

Sempre que um modelo de organização eclesiástica com todo o seu aparato e formas se torna um fim, a igreja tende a perder o seu diferencial na sociedade. Logo, perde também a sua relevância. Uma igreja local, por exemplo, pode se tornar um clube, uma associação com outros interesses, um clube étnico, um grêmio recreativo, uma espécie de sindicato, uma ONG, etc. Não que qualquer destes outros interesses, em si, sejam ruins. O fato é que a igreja não existe para isso. Para todos os fins na sociedade existem outros meios, outras instituições que, não raro, cumprem com suas funções com muito mais competência que uma igreja que está desvirtuada daquilo que ela deveria ser. Logo, quando uma igreja (como denominação ou como comunidade local) está mais concentrada em obter dinheiro e se dedica a promover eventos e desenvolver produtos com este fim, ela está atuando na esfera do mercado, o que, definitivamente, não é seu papel. Não que uma igreja, seja ela uma organização local ou nacional não precise de recursos financeiros. Mas, em sua esfera de atuação, estes recursos devem ser levantados através da doação e contribuição voluntária de pessoas, nunca fruto de negociações, venda de produtos e promoção de eventos. Cabe aqui mais um esclarecimento: não estamos dizendo que é necessariamente errado que se levante recursos com eventos e venda de produtos e promoções, etc. para os mais diversos fins na sociedade em geral. O caso é que quando uma igreja faz disso o seu "carro chefe", o que temos não é mais uma igreja, mas qualquer outra instituição social que, embora ainda possa se denominar igreja, se degenerou em alguma outra coisa.

Uma igreja, portanto, deve ser conhecida e respeitada na sociedade pelo amor com que os seus membros demonstram uns pelos outros e pelo serviço que estes mesmos membros estão dispostos a dispensar para com a realidade à sua volta (Atos 2. 42-47). Com isso, sugiro que você faça uma pesquisa em sua cidade. Saia pelas ruas e pergunte às pessoas o que elas pensam da tua igreja local. Como a tua comunidade é conhecida na cidade? Obviamente você obterá respostas de pessoas que vão querer desabafar seu ódio e frustração contra toda e qualquer igreja, mas, na maioria dos casos, obterá uma impressão que a tua igreja está causando ali. Se a tua comunidade for mais conhecida, por exemplo, como a igreja das "boas festas do chopp e da linguiça", com certeza alguma coisa está errado. E, não que o erro esteja em que haja boas festas, ou, que exista algum problema em apreciar um bom chopp ou gostar de pão com linguiça. Afinal de contas, sempre poderemos encontrar boas festas, bons chopps e boas linguiças. Mas, onde as pessoas encontrarão, quando quiserem ou precisarem, uma boa igreja? Se a igreja se degenerar em qualquer outra coisa, dificilmente a farmácia, o açougue, o supermercado, o hospital, a rádio, o banco, o clube social, o sindicato, a cooperativa, e etc., cumprirão o papel que somente uma boa igreja, fundamentada no evangelho, pode cumprir. Por mais que em todas as instituições da sociedade existam cristãos espalhados, testemunhando e servindo à partir de suas vocações, as igrejas locais, como a assembleia dos santos, continuam como essenciais para um mundo caído (Mateus 5. 13-14 e Hebreus 10. 24-25).

Alguns outros textos que já publicamos sobre o tema "igreja" e que podem servir àqueles que querem complementar a reflexão:

Três Lições Sobre Igreja
O Que é Igreja?
Aos Líderes Que Ainda Desejam Edificar Igrejas Relevantes
A Igreja e as igrejas
Ser Discípulo - Ser Igreja

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Família III

Se Deus instituiu a família, ninguém melhor do que ele para saber como podemos gozar plenamente esta realidade. Sabemos seguir e respeitar bem as leis naturais que reconhecemos no mundo em que vivemos. Por exemplo, se a lei da gravidade é algo instituído e, nós sabemos disso, vamos respeitá-la e, se não por temor e respeito a Deus, pelo menos por bom senso, afinal, sabemos bem as consequências de se tentar sair voando pela janela do décimo andar de um prédio.

O pecado, nossa rebeldia, no entanto, o que faz? Faz-nos ir contra a vontade de Deus. O pecado não mais nos permite um discernimento claro sobre a realidade. E, especialmente no que se refere à vontade de Deus, passamos a achar que sabemos melhor das coisas! “Foi isto mesmo que Deus disse!?” (Gênesis 3:1).

Não estamos falando aqui de uma simples regra ou lei arbitrária que legitima ou distingue o cristianismo frente ao secularismo ou às demais religiões. Pois, ou cremos de fato que Deus é real e criou todas as coisas a partir de seu poder, soberania e sabedoria, ou, assumimos de uma vez alguma síntese moderna que julgamos mais sofisticada frente à vontade de Deus revelada.

O que Jesus faz diante da religiosidade de seu tempo? Qual é a posição de Jesus diante de uma realidade marcada pelo pecado? Como Jesus responde às perguntas – sejam elas legítimas ou meramente provocativas – do seu tempo?
Divórcio, casamento, filhos, castidade, adultério, imoralidade sexual, etc.. Está tudo lá. Jesus não estava imune às tentações, à realidade, às pressões sociais, às perguntas e às provações. As pessoas sabiam também que estavam diante de alguém que pregava, ensinava e vivia na perspectiva de outro reino. Aquele galileu era diferenciado!

Como se dava esse encontro de realidades entre o mundo caído e a realidade da redenção? Como Jesus respondeu aos fariseus?

Primeiramente, Jesus não faz concessões. Ele não muda a ordem original da criação. Ele não tenta harmonizar a realidade corrompida pelo pecado de modo a justifica-la. Algumas frases da resposta de Jesus são extremamente esclarecedoras: "Vocês não leram que, no princípio, o Criador ‘os fez homem e mulher’” (Mateus 19:4).
O que Jesus está fazendo aqui?

Ele não muda a ordem original das coisas. Ele simplesmente diz: Deus fez assim. Esta é a ordem estabelecida. Se houve algo que alterou a ordem das coisas, isso foi o pecado. Mas, o padrão não muda por causa do pecado. A queda não altera a lei de Deus. Não podemos tentar encontrar um padrão de prumo diferente a cada vez que encontramos uma parede torta. Por mais que algumas coisas sejam relativas, eu não vou convencer ninguém se toda vez que eu me atrasar a minha justificativa for dizer que pra mim o tempo funciona num ritmo diferente!

E, Jesus vai adiante: “Por essa razão, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e os dois se tornarão uma só carne’” (Mateus 19:5).
São várias as implicações que podemos concluir daí. Observem, no entanto, como Jesus deduz uma coisa da outra: “por essa razão...”. A família, homem e mulher, a multiplicação – procriação -, está tudo lá, instituído desde o princípio. Tudo faz parte daquela avaliação que conclui: “Ficou bom, muito bom!” (Genesis 1. 31).

“...o que Deus uniu, ninguém o separe”, continua Jesus em Mateus 19:6. Jesus não expõe uma versão atualizada, adaptada, nem uma releitura pós-queda à questão da família. Ao dizer, por exemplo, que “o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e eles se tornarão uma só carne”, Jesus está fazendo uma citação praticamente literal do que temos em Gênesis 2:24.

É isto. É a ordem da criação. Façam assim e viverão. É assim que está estabelecido! Dá pra desobedecer? Dá pra tentar diferente? Dá. Dá pra desafiar a gravidade? Dá. Dá pra contornar. Mas, é assim, está tudo entre o viverás e o morrerás. Jesus não enfeita, não justifica, não ameniza, não introduz eufemismos ilusórios!
“Ah, mas Moisés falou que...”
“Ah, mas ninguém é de ferro...”
“Ah, mas se for desse jeito então é melhor nem casar...”
“Ah, mas se é assim quem é que vai conseguir!?”
E, assim, somos nós, buscando brechas, uma porta dos fundos, uma explicação mais sofisticada, algo que nos justifique...

Jesus vai dizer exatamente isso: “Moisés lhes permitiu divorciar-se de suas mulheres por causa da dureza de coração de vocês. Mas não foi assim desde o princípio” (Mateus 19:8). Enfim, se é assim ou assado, é por causa do pecado, da desobediência, da teimosia, da incredulidade de vocês. Mas, não que esta seja a vontade de Deus. Não que este é o projeto do criador.

Em sua misericórdia, o amor de Deus permanece, sua graça está à disposição. Mas existe um jeito certo que continua o mesmo, continua certo, é o melhor jeito, é aquele instituído desde o princípio e que corresponde ao caminho que leva á realização mais profunda, completa, plena...

Não queiram fazer do pecado um novo padrão! Não queiram buscar nos modelos pós-queda a justificativa para sua fraqueza! As distorções, consequências do pecado, obviamente estão aí, por toda parte. Mas, Jesus não autorizou que nenhuma destas distorções fosse colocada como referência legítima para novos modelos. Ele sempre de novo apontou para o pai, o Criador, a origem de tudo. Aquele cuja vontade é boa, perfeita e agradável!

É isto...!

Sem nos esquecermos, portanto, de que vivemos a realidade caída, onde somos fracos, limitados, rebeldes, endurecidos, teimosos... deixemo-nos renovar e transformar dia após dia em nossa jornada de discipulado, levando “cativo todo pensamento, para torná-lo obediente a Cristo” (2 Coríntios 10:5).

O mesmo Deus que nos criou é aquele que nos redime. Como o centro do Evangelho, o Reino de Deus inaugura a nova realidade, a redenção de todas as coisas que Deus criou! O Senhor Jesus é aquele que redime também relacionamentos, lares, e famílias! Que possamos nos deixar transformar por sua graça e misericórdia, de modo que experimentemos a boa, agradável e perfeita vontade de Deus para nossas famílias!

segunda-feira, 31 de março de 2014

Família II

Existe um texto nos Evangelhos que é bastante revelador sobre a postura de Jesus quanto ao tema da família. Em Mateus 19. 3-12, encontramos uma situação onde...

Alguns fariseus aproximaram-se dele (Jesus) para pô-lo à prova. E perguntaram-lhe: "É permitido ao homem divorciar-se de sua mulher por qualquer motivo?” 
Ele respondeu: "Vocês não leram que, no princípio, o Criador ‘os fez homem e mulher’ e disse: ‘Por essa razão, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e os dois se tornarão uma só carne’? 
Assim, eles já não são dois, mas sim uma só carne. Portanto, o que Deus uniu, ninguém o separe". 
Perguntaram eles: "Então, por que Moisés mandou dar uma certidão de divórcio à mulher e mandá-la embora?”
Jesus respondeu: “Moisés lhes permitiu divorciar-se de suas mulheres por causa da dureza de coração de vocês. Mas não foi assim desde o princípio. 
Eu lhes digo que todo aquele que se divorciar de sua mulher, exceto por imoralidade sexual, e se casar com outra mulher, estará cometendo adultério". Os discípulos lhe disseram: "Se esta é a situação entre o homem e sua mulher, é melhor não casar". 
Jesus respondeu: "Nem todos têm condições de aceitar esta palavra; somente aqueles a quem isso é dado. 
Alguns são eunucos porque nasceram assim; outros foram feitos assim pelos homens; outros ainda se fizeram eunucos por causa do Reino dos céus. Quem puder aceitar isso, aceite".

Minha reflexão com este texto não vai tanto nos pormenores que poderíamos extrair aqui. Mas, chamar a atenção para alguns pontos que nos levam novamente para a questão mais abrangente e, quem sabe, central.

Nós vivemos uma realidade onde muitos veem a religião como uma espécie de fenômeno que se propaga à base do “pode ou não pode”. E, muitas vezes, esse ‘o que pode e o que não pode’ é tomado como algo totalmente arbitrário, como se fosse instituído pelas religiões apenas para se distinguir, ou, infernizar a vida de seus fiéis. Daí vem a famosa frase “a minha religião não permite!”
Divórcio: Pode ou não pode?
Sexo antes do casamento...
Homossexualidade...
Ou, o que é melhor? Casar ou permanecer solteiro...? Ter ou não ter filhos...?

A pergunta dos fariseus lembra muito algumas perguntas e comentários que muitos de nós também escutamos hoje em dia. É uma percepção da religião, típica de quem não compreende as implicações mais profundas da fé, da vontade de Deus, do que significa viver num mundo criado, ou seja, um mundo e uma realidade que tem uma origem num Deus pessoal, soberano, todo-poderoso.

Quando buscamos no relato de Gênesis a vontade de Deus no que se refere aos seres humanos e à vida familiar, encontramos revelações muito claras. Existe uma ordem para a criação de Deus e, esta, não exclui as relações humanas, a vida em sociedade e a família, pelo contrário.
o Senhor Deus ordenou ao homem: "Coma livremente de qualquer árvore do jardim, mas não coma da árvore do conhecimento do bem e do mal, porque no dia em que dela comer, certamente você morrerá". (Gênesis 2:16-17).

Se Deus é o criador de todas as coisas, ninguém melhor do que ele para saber o que é o melhor para a sua criação.


Na próxima postagem vamos comentar um pouco mais sobre algumas coisas que Jesus diz em sua conversa com os fariseus e discípulos no relato de Mateus 19.

quarta-feira, 19 de março de 2014

Família

O tema da família é de grande importância para a sociedade. Embora muito tematizado, parece cada vez mais difícil se posicionar sobre este assunto. Frente aos diversos questionamentos e busca por modelos, a igreja cristã vem se debatendo de forma que, na maioria dos casos, age de maneira reativa, jogando na defesa. Como cristãos, cremos que a família, como tal, é criação de Deus, é projeto original do Criador de todas as coisas.

 Falar da família, enfatizar o valor da família, defender a família não pode ser meramente um discurso reativo frente aos ataques de um mundo hostil. Antes, a família é algo que, independente das distorções - que geram desde celebração até arrepios -, está na concepção de algo que compõe a ordem da criação de Deus. Isso quer dizer que qualquer limitação causada pelo pecado não legitima as distorções da experiência humana. Tampouco a nossa limitação deveria se tornar justificativa para um comodismo frente aos desafios, dificuldades e obstáculos que se apresentam. Ainda é possível falar de um referencial quando o assunto é família?

Sem perdermos a perspectiva da graça, da misericórdia e do projeto de redenção de Deus, devemos também manter aberta as nossas mentes e nossos corações, de modo que a tolerância, no melhor sentido da palavra, permaneça como uma marca distintiva do caráter cristão. E, isso no que se refere ao fato de sermos diariamente desafiados a sermos imitadores de Cristo, tanto em nossa vida pessoal, de santidade, quanto em nossos relacionamentos com o próximo.

Existem diversos meandros e sutilezas, vários exemplos que poderíamos citar aqui e que dizem respeito a esta temática. Desde as tentativas de mudar a nomenclatura, típico da ideologia do politicamente coreto e seus eufemismos, até as investidas da mídia em tornar normal algo que, especialmente na visão deles, escandaliza os religiosos e conservadores, existem vários exemplos, relatos e questões que poderíamos discutir. Casamento e divórcio, heterossexualidade e homossexualidade, casar ou permanecer solteiro, ter ou não ter filhos, aborto, fidelidade e infidelidade, homem e mulher, sexo ou gênero, etc... são assuntos que inevitavelmente surgem dentro deste tema maior da família.

O que poderíamos fazer diante de toda confusão e crise familiar? Existe algo que a fé cristã e a tradição protestante têm a dizer sobre isto? De que modo as Escrituras e a vontade de Deus se posicionam com relação à família? De que modo nós poderíamos manter uma postura firme, em amor, de modo que sejamos tolerantes, acolhedores e misericordiosos? Ainda é possível ser um cristão, acreditar e defender a família sem compactuar com tudo aquilo que vem se querendo instituir como “legítimo” e “normal” na sociedade?


Enquanto você reflete sobre estas questões e posta seus comentários e opiniões, aguarde nosso próximo post onde continuaremos o assunto.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Revolución ou Reformación?

Em parceria com a Obra Gustavo Adolfo (OGA), o Conselho Nacional da Juventude Evangélica (CONAJE) da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB) está lançando um modelo de camiseta com a marca “Viva la Reformation”, uma paródia da logo "Viva la Revolution" com Che Guevara.
Estampa das camisetas do CONAJE

Não se trata de nada original, uma vez que a ideia já é encontrada em outros países. Há apenas uma pequena variação: a camiseta do CONAJE tem o rosto de Lutero e a frase “Viva la Reformation” (“Viva a”, em espanhol, e “reforma” em alemão), enquanto a que já existe fica ainda mais próxima ao espírito latino com "Viva La Reformación". O que não consegui encontrar nas páginas da internet e redes sociais que
divulgam a camiseta é uma explicação para a arte e a frase estampada. Só diz que é uma promoção devido os 500 anos da Reforma Protestante que acontecerá em 2017. E, diz ainda o texto divulgação, "a identidade visual criada nos faz refletir quanto a que reformas precisamos em nossa sociedade e em nossa Igreja hoje, quase 500 anos depois de Lutero". Não sabemos quais foram as reflexões e as motivações para terem chegado a esta proposta. E, nem mesmo por que uma produção para os 500 anos de Reforma está muito mais relacionada ao revolucionário argentino do que propriamente à causa da Reforma Protestante. Ficarei aguardando como tal identidade visual nos fará "refletir quanto a que reformas precisamos em nossa sociedade".

Quero, no entanto, aproveitar o ensejo e tecer alguns comentários sobre os termos 'reforma' e 'revolução'. Elas não significam a mesma coisa. Se foi pensando na diferença entre os dois termos que o CONAJE decidiu colocar esta arte na camiseta, então, sim, pode ser que os desdobramentos e a reflexão que tudo isso vai gerar pode ser bastante positivo. Buscando por uma definição dos dois termos, um dicionario online trás o seguinte:
 Revolução: Revolta, sublevação. Mudança brusca e violenta na estrutura econômica, social ou política de um Estado (ex.: a Revolução Francesa).
Reforma: Ato ou efeito de reformar. Mudança operada tendo em vista um melhoramento. Melhoramento introduzido numa regra muito moderada, numa ordem religiosa. Nova organização ou modificação de uma organização existente.

Obviamente que pode acontecer de alguém tomar uma palavra com o sentido de outra. Ambos os termos partem de um mesmo princípio que é a "mudança". Nós sabemos que com a reforma Lutero buscava mudanças na igreja. Mas, será que ele optou pela via da reforma ou da revolução? E notório que ele nunca pretendeu por abaixo toda a tradição da igreja, sua agenda não foi o da radicalidade. O reformador não queria acabar com toda a igreja católica de modo que nenhum vestígio sobrasse. Não, o monge alemão não desejava romper com tudo, o que ele desejava era exatamente aquilo que o termo que utilizamos ao longo dos séculos quer dizer: reforma. Os reformadores acreditavam na estratégia de que para uma mudança histórica, melhor é a renovação progressiva em vez de destruição violenta. E é conhecida na história da Reforma Protestante o rompimento de Lutero com um de seus colaboradores chamado Thomas Müntzer. A razão é que Müntzer não achava que Lutero fosse radical o suficiente. A consequência foi a guerra dos camponeses. Outro aspecto importante da biografia de Lutero é que ele nunca propos criar uma nova igreja. Tampouco foi dele a iniciativa de deixar a igreja católica. O que aconteceu foi a excomunhão, ou seja, Lutero foi expulso pelo papa da época que não concordava com as reformas propostas pelos reformadores liderados por Martim Lutero.

Portanto, reforma pressupõe mudança sobre algo já existente. A Reforma Protestante não rejeitou toda a tradição, ela quis apenas reformar a tradição e denunciar os seus erros para que houvesse um redirecionamento. A palavra revolução é descartada por sua conotação negativa, pois é geralmente caracterizada por "(1) violência necessária, (2) remoção completa de cada aspecto do sistema estabelecido e (3) construção de uma ordem social totalmente diferente de acordo com um ideal teórico"*. Assim, a palavra reforma é preferível, pois o princípio da reforma "enfatiza a necessidade de evitar a violência. Nenhuma ordem social ou religiosa é absolutamente corrupta. E, a reforma "não coloca a sua confiança em planos e concepções da sociedade ideal alcançada por especulação científica ou pseudocientífica". A abordagem da reforma "enfatiza os aspectos positivos da tradição, da autoridade, da continuidade histórica". Se for isto que a camiseta do CONAGE pressupõe, então, sim, "Viva la Reformation". E, a melhor arma de Lutero foi a Palavra. No entanto, se o objetivo for uma aproximação com os métodos sangrentos da guerrilha e da luta armada com a qual se identifica Che Guevara, então, Jesus Cristo realmente precisa ficar de fora da conversa. Quais são as mudanças, portanto, que precisamos em nossa sociedade? Quais são as reformas necessárias? Quais serão os meios e estratégias necessários para trabalharmos pelas reformas?

A mudança é positiva e necessária. As instituições precisam se deixar renovar, reformar. O princípio da reforma permanece um desafio para nós, igreja no século XXI: "Ecclesia reformata et semper reformanda est" (A igreja reformada está sempre se reformando). Que possamos todos, jovens ou não, celebrar os 500 anos da Reforma Protestante no melhor espírito da reforma que é permanecer sempre reformando!
Pintura feita por Lucas Cranach

 * WOLTERS, Albert M. A Criação Restaurada: base bíblica para uma cosmovisão reformada. Tradução de Denise Pereira Ribeiro Meister. São Paulo: Cultura Cristã, 2006. p. 103.

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Recomeçar...

Entre agosto de 2003 e dezembro de 2013 vivi, trabalhei, fiz amigos e tive filhos na cidade de Pelotas, RS. A partir de 2014 entro numa nova fase, nova cidade, novos desafios. Resido novamente em Curitiba, PR. Neste intervalo fomos para São Gabriel da Palha, ES, visitar mãe, parentes e amigos. Esse processo todo de mudanças fez com que o blog ficasse meio parado. No entanto, espero poder retomar as coisas agora que já vou me instalando aqui na capital paranaense.

No Espírito Santo pude ver mais de perto algumas consequências das fortes chuvas que castigaram o estado no finalzinho de 2013. Pelas ruas das cidades todos os dias era possível ver mais restos de móveis sendo descartados. As chuvas passaram, o noticiário não fala mais nada. No entanto, as consequências permanecem. Muitas pessoas precisam encontrar força e motivação para continuar em frente. Promessas são muitas, mas, além de algumas poucas cestas básicas, nada de mais concreto se confirmou para ajudar as pessoas. Resta continuar esperando e acreditar que com o tempo algo vai acontecer. Mesmo assim, as pessoas rapidamente vão procurando contornar os problemas e seguir a vida normalmente. Nestas situações duas coisas ajudam a revelar a realidade da natureza humana: enquanto alguns se aproveitam para surrupiar algum objeto ou abusar dos preços em produtos essenciais, muitos se dedicaram em ajudar, doar, servir. Mais uma vez fica evidente a ganância, a insensibilidade, a maldade que o ser humano pode nutrir em seu coração, ou, a bondade, a solidariedade, a misericórdia e o amor. Somos assim. Seres humanos criados á imagem do bom criador, mas, caídos, rebeldes, voltados para si mesmos.
Com minha filha, Sophia, nos arredores de S. Gabriel da Palha/ES

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

É Mais do que Ouvir Falar...

Eu realmente não sei bem o que escrever neste que é o meu último texto este ano. O final de 2013 chegou com muitas coisas acontecendo e que trazem um misto de ansiedade, preocupação e expectativa. Pouco mais de dez anos e quatro meses atrás eu chegava em Pelotas/RS. Foi a cidade onde morei por mais tempo em toda a minha vida. Agora, chegou novamente o momento de partir. Já foram tantas mudanças, tantas casas que nem sei mais onde estão minhas raízes. Ao mesmo tempo, acompanho de longe, angustiado, a situação das enchentes no meu estado de origem. Minha mãe, já idosa e que mora sozinha, foi uma das pessoas que teve que ser resgatada às pressas no meio da noite devido às fortes cheias e a rapidez com que a água subiu. Apesar de perdas substanciais e do desafio de encontrar forças para trabalhar e se reerguer, ela está bem.
São Gabriel da Palha-ES - Bairro Cachoeira da Onça - 19/12/2013

Apesar de minha infância e juventude muito pobre, sem qualquer chance de algo semelhante ao que vemos em termos de ceias, presentes, festas e tudo o que o consumismo deste mundo costuma relacionar com o Natal, eu sempre gostei deste clima natalino. Pela primeira vez, neste ano, as coisas são diferentes. O clima natalino e a expectativa de férias, de rever familiares, de mudar de ares, tudo se foi. As férias em janeiro serão de mão na massa e ajuda no que for necessário lá no Estado do Espírito Santo. A angústia é por não poder ir logo para lá! Como este texto é redigido na véspera do Natal de 2013, pode ser que quando finalmente puder estar lá, no dia 07 de janeiro, as coisas estejam melhores! A esperança é esta!

A sensação, depois da noite muito ruim de uma semana atrás, aquela em que minha mãe foi surpreendida com a casa alagada, é que as poucas horas que dormi me fizeram entrar num estado do qual não acordei mais! Uma longa noite, pesada, difícil, que não permite repouso, não há descanso. O ar é pesado e a respiração difícil! A maioria das coisas que algumas pessoas tentam dizer soa apenas como um consolo barato! Em meio à dor de milhares de pessoas, a alegria consiste em ver que ainda há muita solidariedade. Por mais paradoxal e estranho que possa parecer, são estes momentos difíceis que são capazes de revelar a fé, a força e a capacidade de mobilização em favor do próximo. Apenas aqueles que sempre questionaram cinicamente a Deus é que se aproveitam destes momentos para fazê-lo ainda mais intensamente. Aquele que crê, porém, vê ainda mais presente a bondosa mão de Deus a carregar, consolar, chorar junto. Estes compreendem a Jó, que em meio a toda perda e toda dor exclamou: "Saí nu do ventre da minha mãe, e nu partirei. O Senhor o deu, o Senhor o levou; louvado seja o nome do Senhor" (Jó 1.21).
 

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