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sábado, 12 de março de 2016

Instruções de Jesus aos Seus Colaboradores

Jesus enviou os doze trabalhadores com esta responsabilidade:

Para converter quem não crê, não comecem viajando para longe. Não tentem ser dramáticos, travando batalhas contra inimigos públicos. Procurem os perdidos, os que se sentem confusos aqui mesmo na vizinhança. Digam-lhes que o Reino já está aqui. Levem saúde para os doentes. Ressuscitem os mortos. Toquem os que são considerados imundos. Expulsem demônios. Vocês são tratados com generosidade, por isso vivam generosamente.

Não pensem que será necessário uma campanha para levantar fundos antes de começar. Não será necessário muito equipamento. Vocês são o equipamento. Tenham em mente de que tudo de que precisam são três refeições por dia. Não carreguem muito peso na viagem. Quando entrarem numa cidade ou numa vila, não procurem nenhuma hospedagem de luxo. Consigam um lugar simples, onde haja pessoas simples: não queiram mais do que isso.

Quando baterem à porta de uma casa, sejam educados. Se forem bem recebidos, sejam gentis na conversa. Se não forem, retirem-se sem estardalhaço, sem fazer cena. É hora de dar de ombros e continuar o caminho. Estejam certos de que no dia do juízo eles irão lamentar o que fizeram, mas isso não será mais problema de vocês.

Mantenham-se alerta. Eu os estou incumbindo de um trabalho perigoso. Vocês serão como ovelhas correndo no meio de um bando de lobos, portanto não chamem atenção para vocês. Sejam espertos como a serpente, mas inofensivos como as pombas.

Não sejam ingênuos. Alguns irão contestar as motivações de vocês, outros tentarão manchar sua reputação – só porque vocês creem em mim. Não fiquem deprimidos se forem levados perante as autoridades civis. Sem saber, eles fazem a vocês - e a mim – um grande favor, dando-lhes um palanque para pregar as novas do Reino! E não se preocupem com o discurso. As palavras certas serão ditas. O Espírito do pai de vocês irá providenciá-las.

Quando o povo perceber que é o Deus vivo que vocês representam, não algum ídolo que os faça sentir-se bem, eles irão volta-se contra vocês, até mesmo membros da família. Aqui está uma grande ironia: proclamar tanto amor e experimentar tanto ódio. Mas não desistam. Não se deixem abater. No final, valerá a pena. Vocês não estão perseguindo o sucesso, mas apenas tentando sobreviver. Sejam sobreviventes! Antes que se esgotem as opções, o Filho do Homem estará de volta.

O aluno não ocupa uma posição mais elevada que a do professor. O empregado não ganha mais que o patrão. Portanto, deem-se por satisfeitos quando vocês, meus alunos, meus trabalhadores na colheita, receberem o mesmo tratamento que eu recebi. Se a mim, que sou mestre, eles chamam ‘demônio das moscas’, o que os criados podem esperar?

Não fiquem com medo. No tempo oportuno, tudo será manifesto, e todos irão saber como as coisas realmente são. Assim, não vacilem em torna-las públicas agora.

 Não se calem diante dos blefes e das ameaças dos valentões, porque não há nada que eles possam fazer contra a alma de vocês. Mantenham-se tementes a Deus: ele é quem sustenta em suas mãos a vida – corpo e alma – de todos.

 Mateus 10. 5-28 na versão A Mensagem de Eugene Peterson para as orientações de Jesus aos doze discípulos

segunda-feira, 20 de maio de 2013

O Jeito de Deus

De certa maneira, o assunto de nossos textos abordando a lei ou a vontade de Deus significa dizer que existe uma ordem para todas as coisas. Essa lei é a maneira como Deus exerce a sua soberania sobre o mundo criado. Logo, agir de acordo com a vontade de Deus é agir conforme o jeito certo. Consequentemente, quem age conforme o jeito de Deus tem maiores chances de ver o fruto de seu empreendimento alcançar êxito. Existe uma maneira correta de agir para cada esfera da realidade: na economia, na estética, na ética, na comunicação, na pedagogia, na lógica, na psicologia, na biologia, na fé e etc. Portanto, sempre que alguém agir conforme a vontade de Deus numa destas áreas, o resultado inevitável será um “produto” de qualidade. O salmista já sabia bem disso: “Como é feliz aquele que não segue o conselho dos ímpios, não imita a conduta dos pecadores, nem se assenta na roda dos zombadores! Ao contrário, sua satisfação está na lei do Senhor, e nessa lei medita dia e noite. É como árvore plantada à beira de águas correntes: Dá fruto no tempo certo e suas folhas não murcham. Tudo o que ele faz prospera!” (Salmo 1. 1-3).

No entanto, sabemos que para que pudéssemos ser de fato livres, Deus nos criou assim, com a possibilidade de tomarmos decisões. Logo, facilmente o ser humano caiu no erro de colocar a si mesmo no centro do universo. O que temos a seguir é resultado da desobediência e da pretensão humana de querer colocar-se como referencia para o mundo. E, assim, a direção que passamos a dar às coisas foi se distanciando da ordem divina na criação. Embotados pelo pecado, perdemos a sabedoria e a capacidade de discernir corretamente as coisas. Tudo consequência de nossa rebelião contra Deus. O mundo à nossa volta tem revelado como estas consequências podem ser catastróficas.

Quando nos rendemos novamente a Deus, a pergunta natural que deveríamos fazer se dirige a Ele: qual é a tua vontade Senhor? E, assim, com oração, meditação, leitura e estudo nas Sagradas Escrituras, nos entregarmos a um relacionamento onde humildemente nos deixamos ensinar por Deus. Obviamente continuaremos cometendo erros. No entanto, com humildade e perseverança, manteremos o foco naquele que sabe todas as coisas! O fato de não podermos alcançar uma perfeição não anula a possibilidade de que podemos melhorar. Eu posso compor uma música e tentar interpretá-la para você com a ajuda de um piano. Mas, garanto que todos concordarão que me sairei muito melhor se antes tiver aulas de canto, teoria musical, iniciação em piano e praticar bastante! Existe um jeito para executar boa música. Quem o descobre, rende-se a ele e pratica, inevitavelmente será um artista que nesta área, estará se submetendo à ordem da criação de Deus.

sábado, 11 de maio de 2013

Além Do Que Os Olhos Podem Ver

O leitor mais atento deve ter notado que temos refletido um mesmo tema numa série que iniciou junto com o ano de 2013. Chegamos ao décimo nono texto tratando a respeito de um tema central na vida das pessoas: a vontade de Deus. Não que todas as pessoas fazem desta uma preocupação central em suas vidas. O que queremos dizer é que este é um tema central, quer saibamos disso ou não. A existência de uma Lei Moral pode ser notada mesmo antes de se reivindicar que por trás dela esteja o Deus da tradição judaico-cristã. No entanto, com muito mais propriedade que eu jamais conseguiria fazer, prefiro indicar ao leitor que busque a companhia de um dos maiores autores cristãos do século XX.

Nos últimos dias comecei a reler Cristianismo Puro e Simples de C. S. Lewis. Além desta que é uma obra magnifica, este pensador irlandês deixou um legado que vale a pena conhecer. Textos como Cartas de Um Diabo a Seu Aprendiz, A Abolição do Homem, O Grande Abismo e muitos outros marcaram uma geração de cristãos pelo mundo. Professor de literatura medieval e renascentista, C. S. Lewis ficou mais conhecido no Brasil graças a uma de suas obras que também vem sendo adaptada para o cinema: As Crônicas de Nárnia. Ateu durante boa parte de sua vida, Lewis rendeu-se à fé cristã numa busca séria e racional que durou algum tempo. No livro Surpreendido Pela Alegria ele relata em uma biografia espiritual essa jornada de volta ao pleno cristianismo.

Voltando ao nosso tema, tomo a liberdade de indicar a leitura de Cristianismo Puro e Simples para todos que desejam buscar maior aprofundamento. Na primeira parte da obra, Lewis aborda o certo e o errado como chaves para a compreensão do sentido do universo. Para ele, “os seres humanos, em todas as regiões da Terra, possuem a singular noção de que devem comportar-se de certa maneira, e, por mais que tentem, não conseguem se livrar dessa noção”. As pessoas sabem “que na prática não se comportam dessa maneira. Os homens conhecem a Lei natural e transgridem-na. Esses dois fatos são o fundamento de todo pensamento claro a respeito de nós mesmos e do universo em que vivemos” (Cristianismo Puro e Simples, versão em português pela Martins Fontes, 2009. p. 12). Lewis vai abordar ainda algumas objeções que questionam se tal moralidade não seria apenas um instinto gregário ou fruto de uma convenção social. Trata-se, portanto de uma leitura bastante útil na companhia deste sábio pensador que nos desafia a enxergar a realidade para além dos fatos. Afinal, além de tudo o que nós - seres humanos - fazemos, sabemos que muitas vezes o nosso comportamento deveria ser diferente.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Saber

Já argumentamos que seguir as leis de Deus é antes uma questão de bom senso do que mera religiosidade sem sentido. Mas, isso não seria destituir o nosso comportamento de qualquer senso de moralidade para um mero pragmatismo? Eu prefiro utilizar a escada ou o elevador para descer um prédio. Será que ao agir assim em vez de simplesmente saltar lá de cima eu estaria mesmo buscando seguir a vontade de Deus? Ou, opto por isso simplesmente porque é melhor para a minha saúde e segurança? Quando eu me importo com as árvores porque ao derrubá-las sei que as cidades ficarão mais poluídas eu não estaria alegando apenas um motivo egoísta? É claro que geramos sofrimento para nós mesmos e para os outros quando violamos a verdade de Deus. Mas, o cristão não age somente por razões pragmáticas. A base de nossa ação é que Deus existe e fez todas as coisas. Amar o próximo, respeitar a natureza, zelar por nossa cidade não é algo em si mesmo. Tudo o que existe tem o direito de ser conforme a ordem criada por Deus. Muito mais do que bom senso, pragmatismo ou medo, é uma questão de confiança irrestrita!

Talvez você argumente que agora estamos entrando em contradição. Afirmamos que viver segundo a vontade de Deus não se trata apenas de motivo religioso. E, agora, dizemos que devemos viver segundo a vontade de Deus simplesmente porque Deus existe. O fato é que há uma maneira como Deus fez todas as coisas e é esta a realidade que temos diante de nós. Exatamente isso. É uma questão de fé. Mas, não uma fé na fé. Mas uma fé em algo objetivo, que pode ser observado, analisado, estudado, testado. Não estou falando de fantasmas ou coisas de algum outro mundo fictício. O que temos é o mundo em que vivemos e que Deus criou para que vivêssemos nele. Qualquer outra explicação para o mundo e a realidade terá seu próprio fundamento que é tão ou mais religioso. A honestidade intelectual exige, no entanto, que consideremos e comparemos todas as visões para ver qual é a mais coerente. Não se trata, portanto, de uma religiosidade arbitrária.

A fé cristã não teme a dúvida, as perguntas e nem mesmo a ciência. Aliás, a ciência moderna é fruto do empreendimento de muitos pensadores cristãos. Os cristãos creem na existência do mundo real. Um mundo que está aí e que pode ser investigado, estudado, pesquisado. Crenças que consideram tudo irreal ou ilusório, ou que acreditam que tudo está possuído de espíritos, não aceitam interferir. Ou porque é perda de tempo ocupar-se com o irreal ou porque não devem profanar os espíritos. Os cristãos, no entanto, creem que a criação é confiada aos seres humanos para que cuidemos e cultivemos. Podemos e devemos interferir. E, assim, desenvolvemos cultura e fazemos ciência. Não significa que temos a capacidade de saber tudo. Mas, também não significa que sejamos incapazes de saber algo.

domingo, 28 de abril de 2013

Os Três Tipos de Lei na Bíblia

Existem três tipos de leis mencionados na Bíblia. Trata-se, na realidade, de uma distinção entre os aspectos moral, cerimonial e judicial da lei. Este desdobramento da lei foi matéria da teologia durante toda a história do cristianismo. Na tradição protestante vemos que os reformadores já falavam sobre as três funções da lei. Este é um discernimento importante para evitar confusão hoje. A lei cerimonial foi cumprida com a vinda de Cristo. Trata-se da lei que tinha como objetivo educar e preparar o povo para vinda de Jesus. Todos os sacrifícios que o povo realizava como cumprimento à lei mantinha-os conscientes de seu pecado. A função da lei era, assim, mostrar ao povo a sua fraqueza e sua natureza pecaminosa. Além disso, deixava as pessoas conscientes quanto à sua incapacidade para satisfazer as exigências da lei. Entra aqui, por exemplo, o sacrifício de animais para purificação do pecador. Por isso que Jesus é também chamado na Bíblia como o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (João 1.29). Jesus foi o sacrifício definitivo. Assim, toda lei cerimonial que encontramos no Antigo Testamento são hoje desnecessárias.

Um segundo uso da lei é aquele que é necessário para a ordem social. Nem todos são tementes a Deus e estarão dispostos a viver segundo a sua vontade. Por isso, a sociedade precisa de leis para que a convivência seja possível. Não fossem estas leis a sociedade, por causa do pecado, se degeneraria totalmente. Afinal, muitos irão obedecer apenas por temor a lei. Se não houvesse um limite de velocidade com penalidades imagine o quão pior o trânsito seria? Se não houvesse nenhuma penalidade para crimes como assassinato, roubo e estupro imagine como seria o convívio social? Portanto, já entre o antigo povo de Israel havia também esse tipo de leis. É a lei de uso político ou civil necessária em todas as civilizações para que estas se organizem de acordo com o seu contexto e realidade. Aquelas leis do povo de Israel caducaram, afinal, não vivemos mais naquela cultura e nem nas mesmas circunstâncias históricas. Portanto, cada nação deve ter a liberdade de criar as leis que lhe sejam convenientes, sem querer conformá-las aos costumes dos tempos bíblicos.

Há ainda o terceiro uso da lei que seria uma aplicação através da qual se encoraja os cristãos a se submeterem mais plenamente à vontade de Deus. É a lei que nos ajuda a discernir o bem e o mal. É aplicável em todas as épocas e ocasiões. A fé, portanto, não nos isenta das boas obras. Não estamos mais sob a maldição ou o castigo da lei quando a descumprimos. O que não significa estar livre das consequências de nossos atos. É, no entanto, somente a partir deste terceiro uso da lei que se pode deduzir uma ética cristã. Como já dissemos em outra oportunidade, quem duvidaria que se nós todos observássemos ao menos os Dez mandamentos teríamos uma sociedade muito melhor?

Muita atenção, portanto, na leitura que fazemos das Escrituras. Pois na Bíblia encontraremos estes três tipos de leis. Sem discernimento correremos o risco de misturar as coisas e transformar a Palavra de Deus em mera repetição de leis sem nenhum aplicação para os dias de hoje!

terça-feira, 23 de abril de 2013

As Escrituras

Existe muita confusão no que se refere à lei de Deus e a Bíblia. E, isso acontece especialmente porque para muitas pessoas a Bíblia não passa de um livro de regras. Infelizmente, devemos admitir, é assim também que muitos cristãos a tratam. Por isso, quando, por exemplo, escutam alguém argumentando contra o aborto, contra a eutanásia ou contra a homossexualidade, se defendem dizendo que deveríamos, então, seguir todas as leis da Bíblia. Com isso elas querem dizer que não é coerente seguir apenas algumas “regras” da Bíblia, mas, todas, como aquelas que falam em pena de morte por apedrejamento e etc. É um tipo de resposta que revela pouco conhecimento bíblico e teológico. Como já dissemos, muitas pessoas encaram a Bíblia como um livro religioso de normas que deveria ficar restrito aos adeptos desse tipo de leitura fundamentalista.

Uma leitura mais atenta, porém, revelará algo mais. Já entre os grandes reformadores como Martim Lutero e João Calvino, percebe-se uma distinção entre os aspectos moral, cerimonial e judicial da lei. Na literatura cristã e nos estudos teológico encontramos uma vasta gama de autores e pesquisadores que nos ajudam a compreender este aspecto. Portanto, não estamos sós diante das Escrituras. Além da comunidade de fé, temos também o testemunho e o trabalho sério de muitos outros cristãos na história para nos auxiliar. O estudo, a reflexão, o aprendizado, como temos dito, fazem parte da nossa natureza. Vamos nos empenhar e fazer bom uso desse talento!

O que estamos dizendo, então, é que existem, sim, aspectos da lei que encontramos na Bíblia e que estão obsoletos. Por quê? A resposta é que haviam leis que eram condicionados àquele tempo, povo e lugar a que o relato bíblico se refere. Lembremos novamente que a revelação de Deus não se dá num vácuo. Deus se revela a um povo, dentro da história e numa cultura específica. Logo, é necessário atenção a isto para não confundirmos a vontade de Deus com aspectos culturais, como costumes, ritos e até mesmo leis civis e judiciais daquele povo em questão. É aí que as ciências podem ajudar. A exegese e a hermenêutica bem como estudos históricos, geográficos, antropológicos e sociológicos dos tempos bíblicos tornam-se recursos indispensáveis para uma melhor compreensão da mensagem. Não nos esqueçamos, porém, que os estudiosos também são seres humanos pecadores. Como tais, podem buscar apenas reforçar seus pressupostos por meio de seu empreendimento científico. É por isso que a Bíblia não é um livro para ser interpretado e lido apenas individualmente. Deus revela a sua vontade para a comunidade. E, esta vontade é confirmada ou refutada pela realidade.

terça-feira, 9 de abril de 2013

A Família

O fato de Deus ter-nos feito com inteligência, criatividade e capacidade de discernimento, permite que sejamos aprendizes. Estamos sempre aprendendo algo novo, somos curiosos e investigamos as coisas. É assim que o ser humano vem desvendando os mistérios do Universo e pode perceber a estrutura da boa Criação de Deus. Deus criou todas as coisas com ordem, em seus devidos lugares, de modo que há uma harmonia que permite a vida e o bom funcionamento das coisas no mundo. As leis naturais e as leis morais não são arbitrárias servindo apenas para oprimir a humanidade. Elas são boas e essenciais para que haja vida. Os seres humanos criados à imagem e semelhança do seu criador podem descobrir e discernir essas leis. Além da nossa consciência e da revelação escrita, temos também a revelação especial de Deus em Jesus Cristo e em toda a Escritura. Cabe a nós assumirmos todo o nosso potencial criativo e discernir neste Universo criado a ordem ou, estrutura da criação, para vivermos segundo a vontade de Deus.

Uma destas vontades de Deus é a família. A melhor maneira de se educar uma criança é permitir a ela crescer num lar com pai e mãe. O melhor relacionamento entre duas pessoas, além da amizade, é o do casamento heterossexual. É nesse tipo de relacionamento que experimentamos a plenitude da boa vontade de Deus para a família. E, como deduzimos isto? Voltando à narrativa da criação encontramos Deus criando os seres humanos, “à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou” (Gênesis 1.27). Portanto, ser homem e ser mulher é uma questão biológica, estrutural, criacional. Foi assim que Deus planejou e fez. Isto pode ser descoberto e observado assim como a lei gravitacional. A família é mencionada ainda nos Dez Mandamentos das tábuas da lei: "Honra teu pai e tua mãe, a fim de que tenhas vida longa na terra que o Senhor teu Deus te dá” (Êxodo 20.12).

A revelação bíblica e especial de Deus permite que confirmemos a questão da família como a célula base e essencial da sociedade. Jesus, quando mais uma vez instigado pelos fariseus, confirmou o que já estava instituído por Deus: “o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e os dois se tornarão uma só carne” (Mateus 19.5). Se há problemas nas famílias – e, alguns bem graves como a violência doméstica, abusos e divórcio - isso acontece porque somos seres caídos, pecadores. O pecado, porém, não revoga a lei de Deus. A boa vontade de Deus permanece. Assim como permanece também a benção para aqueles que se esforçam para viver o casamento e a família segundo os padrões de Deus. O nosso fracasso não pode ser desculpa para fingirmos que Deus e suas leis não existem!

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Jesus e a Lei

A dificuldade de muitas pessoas para se curvarem à vontade de Deus leva a desculpas das mais esdrúxulas. Por desconhecerem as Escrituras, não conseguem vê-la num todo harmônico. Logo, também não conseguem compreender como alguém já justificado, portanto, salvo diante de Deus, precisaria ainda buscar conforma-se a vontade deste Deus. A questão é que mesmo após a vinda de Jesus as boas leis de Deus permanecem. Vejamos essa questão nas palavras do próprio Jesus em seu famoso Sermão da Montanha: "Não pensem que vim abolir a Lei ou os Profetas; não vim abolir, mas cumprir. Digo-lhes a verdade: Enquanto existirem céus e terra, de forma alguma desaparecerá da Lei a menor letra ou o menor traço, até que tudo se cumpra. Todo aquele que desobedecer a um desses mandamentos, ainda que dos menores, e ensinar os outros a fazerem o mesmo, será chamado menor no Reino dos céus; mas todo aquele que praticar e ensinar estes mandamentos será chamado grande no Reino dos céus” (Mateus 5.17-19).

Não há aqui nenhuma confusão. O nosso destino, a nossa salvação, o nosso futuro não dependem do quanto seguimos a lei ou não. É fato que não conseguimos cumpri-la. Somos culpados. Por isso, Jesus é a nossa salvação. Entregues à própria sorte estaríamos perdidos eternamente. Logo, não seguimos mais a lei para garantir pontos com Deus. Mas, para que vivamos mais plenamente. Assim como, mesmo após a vinda de Cristo, a maça continua a cair do pé por causa da lei da gravidade, também a norma de Deus para a cultura, a sociedade e os relacionamentos humanos permanece. A lei moral continua nos mostrando o quanto somos limitados, inconsequentes, rebeldes – pecadores. A diferença é que não precisamos mais nos desesperar. O ideal seria não pecar, mas, se pecarmos, e pecamos, “temos um intercessor junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo” (1 João 2.1). É por isso também que Paulo não se desespera ao deparar-se com seu dilema de não conseguir viver a altura dos padrões de Deus. Ele reconhece o problema, mas, imediatamente identifica a solução: “Miserável homem eu que sou! Quem me libertará do corpo sujeito a esta morte? Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor!” (Romanos 7.24-25).

Qual é, então, a função da lei para nós, hoje? Além de permanecer como a revelação da boa vontade de Deus e nos revelar a nossa pecaminosidade, ela nos orienta para uma vida plena. Alinhar-nos segundo a ordem das coisas criadas e, com toda a boa vontade de Deus, é sinal de sabedoria e bom senso. Ao quebrarmos uma lei ela continua sendo a boa lei de Deus. A boa notícia é que não somos mais condenados por não cumprir a lei. Temos alguém que a cumpriu por nós. A fé consiste em crer naquele que observou plenamente a vontade de Deus: Jesus. Logo, querer viver segundo a vontade do Deus em quem se crê e, que nos amou de tal maneira, será algo natural para o cristão.

terça-feira, 26 de março de 2013

A Solução

Deus revela a sua boa vontade de modo que possamos discerni-la em nossa consciência, na natureza criada e na revelação dos Dez mandamentos. Sabemos que existe o certo e o errado, o bem e o mal. Sabemos disso porque temos um referencial infinito acima de nós, que somos finitos. Somos culpados porque diante da boa vontade de Deus nos damos conta de que não conseguimos viver à altura. Somos desobedientes e nutrimos os nossos sonhos de grandeza e autonomia. Gostaríamos mesmo é de tomar o lugar de Deus. Temos dificuldades para admitir que existe alguém acima de nós, que nos conhece por inteiro e sabe melhor das coisas. Ao revelar a sua lei nas tábuas de pedra a Moisés, Deus estava deixando claro que se vivessem segundo esta vontade a vida de todos seria abençoada. O fato é que vemos na vida do Povo de Israel que eles não conseguiram. E, sejamos sinceros, nós hoje também não conseguimos. Assim, pagamos o preço pela nossa desobediência e incapacidade de viver segundo o padrão de Deus.

Uma vez que somos culpados perante Deus por nossa desobediência, vivemos com este sentimento. É um fato. No que diz respeito ao futuro, ao nosso destino, a nossa desobediência indica que não escolhemos a Deus. Logo, a eternidade é algo do qual abrimos mão para satisfazermos os nossos interesses imediatos. Acabamos perdendo a dimensão do todo e de tudo aquilo que Deus tem como propósito para as nossas vidas. Trilhamos um caminho paralelo, traçado por nossa arrogância e sonhos de grandeza. Achamos que este caminho nos levará a um destino melhor do que levaria aquele que foi traçado pelo Senhor do Universo. Concordamos que a lei é boa, que segui-la é razoável e faria o mundo melhor. Mas, devido a nossa incapacidade de respeitá-la, preferimos negar seu autor ou mesmo a sua bondade em vez de assumirmos a nossa culpa. É difícil admitir a nossa degeneração. Gostamos de apontar a corrupção nos outros. Quando eu faço é “jeitinho”, quando é o governo ou alguém “mais poderoso”, então é corrupção.

Somos todos pecadores. A lei de Deus revela, além da boa vontade de Deus, também a nossa limitação. “De fato a lei é santa, e o mandamento é santo, justo e bom” (Romanos 7.12). Uma vez diante da face do Pai só nos restaria gritar como Isaías: “Ai de mim! Estou perdido! Pois sou um homem de lábios impuros e vivo no meio de um povo de lábios impuros; e os meus olhos viram o Rei, o Senhor dos Exércitos!” (Isaías 6. 5). Ora, se não conseguimos cumprir a boa lei de Deus e nos tornamos culpados e condenados diante de nosso Senhor, qual é a solução para a humanidade? Por melhor que alguém seja, esta pessoa não conseguirá cumprir plenamente a lei de Deus. Não há como estabelecer medidas ou graus de santidade. “Pois todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus” (Romanos 3. 23). Assim, não somos nós que vamos a Deus em busca de justificação. É Ele quem vem e nos redime. A solução para nós, miseráveis pecadores, é Jesus Cristo, aquele que foi crucificado e ressuscitou!

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Religioso

Não é apenas no âmbito reconhecidamente religioso que o ser humano cria seus ídolos. Uma vez que somos criados à imagem e semelhança de Deus que, assim, colocou em nossos corações o anseio pela eternidade (Eclesiastes 3. 11), nós buscamos sentido para a vida. Mesmo que as pessoas ignorem a Deus, insistam em rejeitá-lo ou mesmo afirmar que Ele não existe, o fato é que não há como fugir da origem. A imagem de Deus impregna a essência de nosso ser. Por isso, ao rejeitá-lo resta o desespero, a desesperança. E, não podemos viver assim. Logo, buscamos alternativas. Por mais que alguém se declare antirreligioso, permanecerá buscando sentido em algo. Permanecerá o desejo de explicar as coisas, de compreender a realidade, de ver tudo dentro de um escopo mais amplo. E, se a rejeição a Deus ou a incapacidade de conciliá-lo com o mundo concreto a nossa volta for muito forte, então, relegamos a Ele um mundo espiritual e privado, fora do mundo real em que vivemos. Dividimos o mundo em dois. Que Deus reine lá no céu enquanto nós vivemos como todo-poderosos aqui na Terra!

Não precisamos ser muito inteligentes para deduzirmos que uma atitude assim é fruto da descrença. Transformamos Deus num mito, um ser do qual as pessoas dependem para sentirem-se melhores. E que, por isso, toleramos desde que não se intrometa em nossas vidas. Há os que mantêm uma espécie de religiosidade privada, desencarnada, mística, separada do mundo e da realidade. E, há quem desconsidere a Deus totalmente, até ridicularizando a possibilidade da sua existência. O segundo grupo, no entanto, não deixa de ter os seus próprios pressupostos, o que os torna tão religiosos quanto os demais. É claro que não vão gostar disso e, por isso, não o admitem. Religiosos são os outros. Mas, é fato que somos todos religiosos, quer o reconheçamos por nossa confissão pública de fé num Deus pessoal, quer o expressemos em nossas ideologias que por fé adotam outro tipo de origem e fundamento de toda a realidade. É a partir dessa base assumida em fé que vão dar sentido à sua vida e explicar o mundo à sua própria maneira.

Com base no que temos dito aqui, podemos deduzir algo: vivemos entre a adoração a Deus ou a adoração a algum ídolo. E, este ídolo não se resume a uma imagem esculpida diante do qual acendemos uma vela ou fazemos uma promessa. Ídolo é tudo aquilo que toma o lugar de Deus como o único digno de adoração. Pois se Ele é o Criador e o fundamento de tudo, tudo o mais que alguém elege para ser colocado no lugar de Deus será menor do que Ele. E, esta coisa estará usurpando uma posição que não lhe pertence. Adorar não é apenas orar, cantar louvores, curvar-se fisicamente diante de algo. Adoramos aquilo segundo o qual vivemos. Vivemos segundo aquilo em que cremos. Não cremos no que confessamos, mas naquilo que revelamos com nossas vidas. Como você crê, assim você vive. Como você vive revela em que você crê (Mateus 7. 16).

Realidade

Apesar de muitas pessoas reconhecerem nos Dez mandamentos leis que representam a boa vontade de Deus, é ainda desconhecido para muitos o fato de que eles não resumem e nem encerram toda a lei de Deus. Por vivermos uma época em que as pessoas desvincularam a fé de toda racionalidade e do mundo natural, acabamos vendo a religião como alguma coisa intimista, relegada ao âmbito privado da vida de cada um. A fé cristã, no entanto, que pressupõe um Deus na origem e como fundamento de todas as coisas, não aceita essa privatização. Afinal, não existe nenhuma realidade, nenhum lugar, nada que fique fora do âmbito da ação e do conhecimento de Deus. Não existe absolutamente nada com o que Deus não se importe ou sobre o que Ele não possa nos instruir. Por ser um Deus pessoal e que se comunica Ele criou seres humanos que se comunicam e se relacionam. E, temos também a capacidade de criar, de investigar e de discernir. 

Apesar de não termos condições de saber todas as coisas de uma forma exaustiva, fato é que podemos conhecer. Temos acesso ao mundo e à realidade e sabemos que algo existe. E, somente porque sabemos que algo existe é que podemos também investigar essa realidade e descobrir coisas. É por isso que a fé cristã foi decisiva para a ciência moderna, por exemplo. Uma fé que não acredita na realidade ou que ignora o fato de que algo esteja aí para ser investigado, não poderia fomentar o estudo e a pesquisa investigativa. Não há como fazer ciência a respeito de uma ilusão. Por isso, a fé cristã não teme a dúvida, as perguntas e a ciência. Pelo contrário. A fé cristã não é um salto no escuro. Devemos utilizar toda capacidade que Deus nos deu para buscar respostas. E, somente depois, decidir. A fé não consiste em abrir mão do bom raciocínio. “Não pense, apenas creia”, é uma frase enganosa e sem fundamento na fé cristã.

Precisamos admitir que muitos cristãos têm vivido uma fé pela fé. Por não enxergarem mais a grandeza de Deus e a abrangência de sua vontade, sua fé se resume a ritos, chavões e práticas que mais se assemelham à religiosidade pagã que busca manipular o sagrado a seu favor. Compreender um Deus cuja criação revela o seu amor e se deixar moldar por sua vontade está fora de cogitação. Resta, assim, uma fé mesquinha e intimista que busca apenas aquilo que nos faça sentir melhor. Deus é diminuído ao ponto de não ser mais nada além de uma força espiritual que me massageia o ego e abençoa conforme eu lhe puder oferecer bons serviços religiosos, seja através de sacrifícios, participação em rituais ou oferendas, oferta de objetos ou dinheiro. Logo, não é mais o Deus todo-poderoso e criador do Universo a quem estamos adorando, mas, um ídolo que criamos e nutrimos em nossos corações.

Culpado

Por ter sido criado à imagem e semelhança de Deus num mundo bom, os seres humanos sentem-se naturalmente culpados por não conseguirem viver conforme a vontade de Deus. É um sentimento de culpa que está lá, mesmo que não haja culpa real. Sentimo-nos deslocados dentro da realidade criada por Deus. Estamos como que desalinhados com relação ao Universo. Sabemos, muitas vezes, que algo está errado, mas, não encontramos palavras que expliquem este sentimento. É como se almejássemos mais, quiséssemos contribuir com algo digno, edificar algo que fizesse algum sentido... O ser humano é capaz das aspirações mais nobres e, também, das atitudes mais vis. Por isso, testemunhamos ao longo da história, a capacidade criativa do ser humano de dar existência às invenções mais fantásticas, a descobrimentos incríveis e a obras de artes arrebatadoras! Por mais culpados que sejamos ou nos sintamos, não perdemos totalmente a imagem e semelhança de Deus em nós.

Quando eu era criança morava próximo a uma represa. Meus pais sempre diziam que eu e meus irmãos não deveríamos entrar lá. Primeiro porque a água não era própria para banho e, segundo, por causa do risco de afogamento. Éramos crianças e não sabíamos nadar. Lembro-me que, certa tarde, depois de meu pai sair, eu e meus irmãos fomos escondidos da mãe e entramos na água. O fato de termos esperado o pai sair e o fazermos escondido já era suficiente para sabermos que estávamos desobedecendo. O friozinho na barriga e a tensão pelo fato de podermos ser descobertos a qualquer momento era, ao mesmo tempo, estimulante e denunciador. O clima era diferente do que quando brincávamos na sala à vista de todos. Ali, na represa, tínhamos a noção do risco, sim. Mas, outro sentimento estava presente: o medo de ser descoberto. Este segundo, talvez, fosse mais forte do que o medo das profundezas da água ou de suas impurezas.

O detalhe desse tipo de traquinagem é que sempre que as crianças são proibidas pelos pais de alguma coisa, elas têm uma resposta. A explicação geralmente tenta dizer que os pais é que estão errados: que nada, nem é tão fundo lá; mas, a água está limpa; eu vou ficar só no raso; é só uma vez; não é tão perigoso assim; já sei nadar; etc. Desde pequenos desenvolvemos a capacidade de racionalizar e argumentar de modo a provar que estamos certos e que sabemos melhor das coisas. Independente disso, sabemos que erramos. Nosso senso moral nos mantém conscientes da diferença entre o certo e o errado. Se a criança se afogar, as pessoas não vão criticar a existência de águas profundas, mas, onde estavam os pais. Não queremos ser cerceados em nossa liberdade a tal ponto de não podermos tomar as nossas próprias decisões. Não deveríamos, então, nos esquecer que o Criador de todas as coisas sempre está certo, mais do que as suas criaturas podem imaginar! A liberdade de escolha, porém, continua sendo nossa!

O Dilema Humano

Para os reformadores Martim Lutero e João Calvino estava claro que o ser humano é incapaz de seguir a vontade de Deus. Lembramos aqui, mais um vez, o dilema humano muito bem explicitado pelo Apóstolo Paulo: “tenho o desejo de fazer o que é bom, mas não consigo realizá-lo. Pois o que faço não é o bem que desejo, mas o mal que não quero fazer, esse eu continuo fazendo” (Romanos 7.18-19). Esta é uma verdade que podemos constatar se fizermos uma análise sincera de nós mesmos. Em quantas boas decisões que tomamos acabamos ficando só na promessa?

 Quando Deus revela a sua vontade nas tábuas de pedra (Êxodo 20), além de termos claro diante de nós a sua lei, somos confrontados também com a nossa incapacidade de cumpri-las. A nossa tentação é o de sempre criar as nossas próprias regras. Reconhecer o Deus criador e legislador acima de nós é demais para as pretensões de independência e autonomia que cultivamos. Por isso, diz o tolo em seu coração: "Deus não existe" (Salmo 14. 1). Como temos visto, a rebelião contra Deus é algo desde sempre. O tipo de mundo e sociedade que temos conseguido forjar com esta rebelião também é evidente.

A revelação da lei escrita de Deus faz parte do seu processo pedagógico para com o ser humano. Diante desta revelação só nos restam duas conclusões: somos falhos, limitados, finitos e incapazes de seguir esta vontade; a vontade de Deus é santa, boa, perfeita e agradável. Se pudéssemos viver segundo esta vontade, o mundo seria melhor para todos. Assim como respeitar a lei da gravidade é bom para a minha integridade física, não matar, não furtar e etc., é bom para o convívio social. Independentemente até, de relacionarmos isso a Deus, podemos constatar estas coisas pela simples observação da realidade. O problema é que confundimos a incapacidade de viver à altura ou, de não querermos isso, com a inexistência da norma. Como não queremos seguir certos preceitos, simplesmente os desprezamos, ridicularizamos ou relativizamos. Muitos, por quererem ao mesmo tempo, fazer as próprias regras e ainda manter uma ideia de Deus, recriam um deus caricato, à imagem e semelhança de suas próprias ideologias. Logo, não é mais Deus, e sim um ídolo que adoram.

Portanto, uma primeira função da lei é demonstrar que somos pecadores. E, assim, preparar o caminho para Jesus e a redenção. Somente diante da revelação da boa vontade de Deus é que podemos nos dar conta de que não estamos em condições de, por nós mesmos, cumpri-la. Como Paulo constata muito bem: “eu não saberia o que é pecado, a não ser por meio da lei. Pois, na realidade, eu não saberia o que é cobiça, se a lei não dissesse: Não cobiçarás’" (Romanos 7.7). É quando constatamos o que se espera de nós que ficamos face a face com as nossas deficiências. E, percebemos o quão distante estamos de Deus e de sua vontade. Logo, compreendemos o mal no mundo, muito mais do que um castigo, uma consequência de nossa corrupção.

A Lei Escrita

O próprio filósofo existencialista Jean Paul Sartre reconhecia que se um ponto finito não tiver um ponto de referência infinito, torna-se sem sentido e absurdo. Como falar de certo e errado, sobre bem e mal, sem uma referência acima de nós, seres humanos falhos e finitos? Se a vida humana não é originada em Deus, mas simples fruto do acaso, qual o problema com o aborto, com a eutanásia, com o assassinato? Se a referência for apenas o ser humano, de qual ser humano estamos falando? O rei Herodes? O conquistador Napoleão Bonaparte? Os deputados do nosso Congresso nacional? Qual é a referência para o certo e o errado? Por mais que alguém negue a existência de Deus ela sustentará algum tipo de moral, alguma compreensão de certo e errado. Se ela negar isso, experimente tomar algo que lhe pertença ou esbofeteá-la e você perceberá a reação.

Simplesmente existe a noção de certo e errado que é intrínseco ao ser humano. E, por que somos assim? Porque fomos criados à imagem e semelhança de Deus. Apesar do pecado, não perdemos totalmente este juízo universal. Por causa da nossa duvida e incapacidade de discernir a Lei Natural e conviver em harmonia, Deus se revela de outro modo especial. No Monte Sinai Deus revela a Moisés a Lei Escrita em tábuas de pedra (Êxodo 20). Na primeira tábua estão as leis pelas quais devemos nos guiar em nosso relacionamento com Deus. E, na segunda tábua da lei, são revelados os deveres para com o nosso próximo, conforme o amor. Para que não permaneçamos reféns de nosso próprio arbítrio, Deus revela a Lei Escrita para que tenhamos um referencial acima de nós e que nos diga claramente qual é a vontade de Deus.

E Deus falou todas estas palavras: "Eu sou o Senhor, o teu Deus, (...) não terás outros deuses além de mim. Não farás para ti nenhum ídolo, nenhuma imagem de qualquer coisa no céu, na terra, ou nas águas debaixo da terra. Não te prostrarás diante deles nem lhes prestarás culto, (...). Não tomarás em vão o nome do Senhor teu Deus, pois o Senhor não deixará impune quem tomar o seu nome em vão. Lembra-te do dia de sábado, para santificá-lo. Trabalharás seis dias e neles farás todos os teus trabalhos, mas o sétimo dia é o sábado dedicado ao Senhor teu Deus. Nesse dia não farás trabalho algum (...). Honra teu pai e tua mãe, a fim de que tenhas vida longa na terra que o Senhor teu Deus te dá. Não matarás. Não adulterarás. Não furtarás. Não darás falso testemunho contra o teu próximo. Não cobiçarás a casa do teu próximo. Não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem seus servos ou servas, nem seu boi ou jumento, nem coisa alguma que lhe pertença” (Êxodo 20.1-17). Quem, em sã consciência, negaria que se a humanidade seguisse ao menos essas poucas leis viveríamos num mundo muito melhor?

A Revelação Natural de Deus

Muitos criticam o judaísmo e mesmo o cristianismo de arrogância. Afinal, estes começam a sua história dizendo-se “escolhidos” por Deus. A arrogância dos judeus estaria em se dizer povo escolhido. Quanto aos cristãos, em crerem na exclusividade de Jesus como o caminho para a salvação. Este é um problema que não se resolve sem uma busca por compreender os meios da graça empregados por Deus. Se não fosse o povo judeu, teria que ser algum outro. Os judeus creem que Deus buscou revelar-se a todos os povos, mas, nenhum aceitou. Mesmo assim, basta uma leitura atenta ao Antigo testamento na Bíblia para percebermos que a graça e amor de Deus também se estenderam sobre pessoas de fora do judaísmo. Quanto aos cristãos, estes creem e ensinam que a salvação é para o mundo todo (João 3.16).

O Apóstolo Paulo ensina em uma de suas cartas que todas as pessoas do mundo têm diante de si a revelação de Deus. A própria criação de Deus o revela, pois “desde a criação do mundo os atributos invisíveis de Deus, seu eterno poder e sua natureza divina, têm sido vistos claramente, sendo compreendidos por meio das coisas criadas” (Romanos 1. 20). E, isso, completa o autor, nos torna indesculpáveis. Por quê? “Porque, tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe renderam graças, mas os seus pensamentos tornaram-se fúteis e os seus corações insensatos se obscureceram. Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos e trocaram a glória do Deus imortal por imagens feitas segundo a semelhança do homem mortal” (Romanos 1.21-23). Quando nos vemos diante de Deus, o adoramos ou o rejeitamos. Rejeitá-lo significa eleger em nosso coração outra coisa para adorar. E, trocar a verdade de Deus pela mentira, adorando e servindo coisas e seres criados, em lugar do Criador (Romanos 1. 25) é idolatria.

Temos, portanto, antes da revelação especial de Deus nas Escrituras e em Jesus Cristo, uma revelação natural. Ao nos deslumbrarmos diante das belezas e encantos do universo criado, estamos recebendo os vislumbres de Deus. Quando Deus escolhe se revelar mais de perto, Ele o faz dentro da história, numa determinada cultura, para um povo específico. Com isso Ele está demonstrando que a Criação é o nosso lugar e não algum outro nível plasmático num mundo além e improvável. Logo, algum povo teria que ser escolhido para receber e comunicar a revelação especial. Por causa do pecado, perdemos a sabedoria e a capacidade de discernimento para muitas coisas. E, embora a nossa consciência nos alerte em vários momentos, em sua graça Deus quis nos revelar a sua Lei Moral de modo claro. Assim, recebemos os Dez Mandamentos (Êxodo 20). E, em Jesus, o próprio Deus se dá a conhecer com todo seu amor e graça.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

A Vontade de Deus

Um dilema na vida de todo cristão piedoso é a busca sincera por viver segundo a vontade de Deus. Como já dissemos, não porque Deus estabelece leis arbitrárias para punir depois quem não as segue. Mas, por uma questão de temor, reverencia e sabedoria. Se Deus existe e é o criador de todas as coisas, nada mais sensato do que buscar proceder segundo os seus desígnios. O dilema do cristão já foi expresso muito bem pelo Apóstolo Paulo: “decido fazer o bem, mas de fato não o faço. Decido não fazer o mal, mas acabo fazendo, de um modo ou de outro” (Romanos 7. 18-19). Portanto, simplesmente saber o que é certo ainda não é garantia de que conseguiremos agir de acordo. Antes, porém, de entramos nessa questão e qual seria a saída, vamos nos deter um pouco mais no ponto anterior: como saber o que é certo e o que é errado.

Esta é uma resposta que obviamente só encontraremos também naquele que criou todas as coisas. Sem Deus não teremos nenhum padrão de moralidade para discernir o certo e o errado. As Leis naturais são parte da vontade de Deus e estabelecidas para o bom funcionamento do Universo. Se você estiver no alto de um prédio muito alto e de repente decidir descer de lá, terá algumas opções para fazer isso: 1) Utilizar as escadas; 2) Utilizar o elevador; 3) Ir até a janela e saltar lá de cima. Qual destas opções estaria mais de acordo com a vontade de Deus? Por tratar-se de uma questão radical que envolve vida ou morte, estupidez ou bom senso, parece muito simples para qualquer pessoa agir de acordo com a vontade de Deus aqui. E, como sabemos que a vontade de Deus consiste em utilizar o elevador ou as escadas e não simplesmente se lançar pela janela? Poderíamos dizer simplesmente que Deus é o criador da Lei da Gravidade e obedecê-la é no mínimo um ato de prudência. Mas, poderíamos acrescentar ainda que é contrário à vontade de Deus que tiremos a própria vida. De onde deduzimos essa última lei?

Assim como existem as leis chamadas naturais, temos também leis morais. Estas foram reveladas por Deus nos Dez mandamentos (Êxodo 20). É por isso que sabemos que existe o certo e o errado. Os mandamentos nos apresentam leis que são igualmente universais. “Não Matarás” não é uma lei específica dada para um determinado indivíduo numa certa época e lugar. Mas, é uma norma para todas as pessoas em todas as épocas e em todos os lugares. É esta lei de Deus que nos ajuda a discernir entre o bem e o mal. Ela nos é revelada pelas Escrituras, mas, também pode ser discernida no mundo e nas culturas em geral. Como seres criados à imagem e semelhança de Deus nós possuímos uma consciência moral que já demonstramos desde muito jovens. Lá no íntimo todos temos alguma consciência do certo e do errado. Estamos cientes do fato de que aqui entramos num terreno delicado e controverso. Acreditamos, no entanto, que não podemos fugir a esta reflexão.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Discernimento

Aqueles que têm nos acompanhado nos últimos textos publicados aqui perceberam a nossa argumentação sobre o Deus criador e a sua vontade. Talvez até mesmo os mais céticos não encontrem maiores problemas com relação a compreensão de que as Leis Naturais ou Universais estejam aí para serem observadas e respeitadas. Mas, e se houver também leis semelhantes para a cultura e a sociedade em geral? Se Deus é criador sobre todas as coisas, então Ele é soberano sobre o reino animal, sobre a sociedade humana, sobre nossas organizações, inclusive o Estado. Nenhum assunto está fora do domínio de Deus. A diferença é a responsabilidade. O vento sopra, os pássaros migram, a maça simplesmente cai. Não se atribui nenhuma responsabilidade para estas coisas. Porém, os seres humanos têm responsabilidades.

Eu posso subir um prédio de dez andares. Lá de cima eu sei que existe a Lei da Gravidade. Se eu saltar do alto do prédio eu posso ter a certeza de uma consequência inevitável: eu vou morrer. No entanto, eu tenho escolha, posso saltar ou não. Se eu saltar e morrer, as pessoas não perguntarão pela razão de Deus ter criado uma lei tão arbitrária quanto a gravidade, mas, o que me levou a cometer uma loucura dessas. Lemos no Evangelho que o diabo levou Jesus “à cidade santa, colocou-o na parte mais alta do templo e lhe disse: ‘Se você é o Filho de Deus, jogue-se daqui para baixo. Pois está escrito: Ele dará ordens a seus anjos a seu respeito, e com as mãos eles o segurarão, para que você não tropece em alguma pedra’. Jesus lhe respondeu: ‘Também está escrito: Não ponha à prova o Senhor, o seu Deus’” (Mateus 4.5-7).

Em nosso sonho de grandeza e autonomia acabamos fazendo muitas coisas insensatas. Os primeiros humanos escolheram desobedecer e pagar para ver. A nossa rebelião nos afasta de Deus. Por um lado, o pecado nos cega e perdemos a capacidade de discernir a boa, perfeita e agradável vontade de Deus. E, mesmo que esta esteja clara para nós, muitas vezes preferimos o nosso próprio caminho. Por outro lado, o ser humano permanece como alguém criado à imagem e semelhança de Deus. Ele mantém, assim, o seu potencial criativo, a sua liberdade de escolha, a capacidade de amar e criar coisas belas. Este é o dilema humano: vivemos entre a dependência de Deus e a rebelião. Não enxergamos mais com clareza. Vemos a realidade como por uma vidraça embaçada. É como se tudo estivesse turvado pela mancha do pecado. Voltar-se para Deus significa começar a abrir a janela em vez de esfrega-la. E, então, experimentaremos algo como escamas caindo de nossos olhos. E, assim viveremos até que finalmente chegue o dia em que veremos novamente face a face (1 Coríntios 13.12).

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Leis Universais

As leis segundo as quais o Universo funciona são chamadas de Leis da Natureza ou Leis Universais. Temos as três conhecidas leis de Newton: o princípio da inércia, princípio fundamental da dinâmica e o princípio da ação e reação. E, muitas outras leis como da termodinâmica, hereditariedade e fotossíntese, por exemplo. Todas elas, se não são precisas, ao menos nos ajudam a compreender melhor o universo e como as coisas funcionam. Logo, o desenvolvimento, as invenções e a maneira de lidar com esta realidade não consistem numa tentativa maluca de revogar tais leis, mas, de se adequar a elas. São leis que estão aí e, através das quais, Deus rege o Universo criado. Elas podem ser descobertas na física, na química, na biologia e outras ciências naturais.

Se estas são leis num Universo criado, elas representam nada mais nada menos do que a vontade de Deus. “Ele envia sua ordem à terra, e sua palavra corre veloz. Faz cair a neve como lã, e espalha a geada como cinza. Faz cair o gelo como se fosse pedra. Quem pode suportar o seu frio? Ele envia a sua palavra, e o gelo derrete; envia o seu sopro, e as águas tornam a correr” (Salmos 147. 14-18). Neste contexto, o que significa viver segundo a vontade de Deus?

Eu posso fazer um pedido ou mesmo dar uma ordem ao meu filho dizendo que ele deve plantar bananeira três vezes ao dia, caso contrário ele será punido com cinco chibatadas. Esta, porém, seria para meu filho uma lei arbitrária, sem qualquer sentido. Por isso, nenhum pai sensato faria algo assim. No entanto, quando digo à minha filha de quatro anos para não colocar a mão no fogo, pois, se ela fizer isso, irá se queimar e sentir muita dor, não se trata de nenhum pedido arbitrário. O fogo queima. Foi criado para isso. É uma lei irrevogável. Respeitar o fogo, portanto, significa sabedoria e não apenas zelo por algum capricho de um pai insano.

Portanto, sempre que os seres humanos trabalham para descobrir as leis do universo, eles estão fazendo aquilo para o qual foram criados. E, quando utilizam seu conhecimento para a promoção da vida, estão refletindo a boa imagem de Deus que herdaram. O Apóstolo Paulo referia-se à vontade de Deus como sendo boa, perfeita e agradável (Romanos 12. 2). Foi esta vontade que criou todas as coisas e avaliou tudo como “muito bom” (Gênesis 1. 31). Viver segundo a vontade de Deus, portanto, não é uma questão de fanatismo religioso, mas, uma demonstração de sabedoria. As Leis Naturais correspondem à ordem de Deus na Criação. A pergunta, então, é: haveria também normas para a cultura e a sociedade?

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

A Direção Que Damos Para As Coisas

O ser humano é livre para fazer escolhas. Isto fica claro desde o princípio quando Deus diz que havia uma árvore no jardim da qual não se deveria comer. Somente um ser humano capaz de discernir as coisas poderia receber tal orientação. É o mesmo ser humano que hoje constrói pontes e projeta aviões porque sabe que, diferente dos pássaros, não é capaz de voar. É este ser humano criativo e cultural que é capaz de discernir as coisas e descobrir as leis de Deus na Criação. Ele pode interagir com a realidade de modo a promover a vida ou a morte: "Coma livremente de qualquer árvore do jardim, mas não coma da árvore do conhecimento do bem e do mal, porque no dia em que dela comer, certamente você morrerá" (Gênesis 2.16-17). Ter um Deus como fundamento de todas as coisas é admitir que existe um modo como as coisas realmente são. Que uma maça cairá até atingir o chão assim que se desprende da macieira pode ser observado em todas as épocas e em todos os lugares do planeta.

Dizer que Deus criou todas as coisas significa que a gravidade existe por sua vontade. Deus quis que as coisas fossem assim. Quando Sir Isaac Newton observava o mundo natural à sua volta é que de repente perguntou a si mesmo: ”Por que essa maçã sempre desce perpendicularmente até o solo?” E assim Newton elaborou a fórmula que representa a lei da gravitação universal. Ele não criou a lei da gravidade, mas, percebeu que ela está aí. A partir dos estudos de pessoas como Johannes Kepler e Isaac Newton a humanidade foi enriquecida com um conhecimento que antes não possuía. Saber como os planetas giram ao redor do sol e como os corpos se atraem mutuamente não estava entre as maiores preocupações dos autores dos relatos bíblicos originais. Mas, estava no ser humano criado à imagem e semelhança de Deus o potencial de explorar e descobrir essas coisas. E, geralmente, ao descobrir como as coisas funcionam na criação, o ser humano pode subjugar esta realidade de modo a tirar proveito, seja para bem, seja para mal.

Uma pessoa que procurou enfrentar o desafio de não poder voar e a lei da gravidade foi o brasileiro Santos-Dumont. Para voar ele precisou conhecer bem como funciona outra lei. A aerodinâmica está relacionada à dinâmica dos corpos que se movem dentro de fluidos como o ar. Assim, a construção do primeiro avião foi possível mediante o conhecimento e estudo dos princípios da aerodinâmica. Se hoje podemos voar é graças à engenhosidade humana que continua a fazer uso do seu potencial criativo herdado de Deus. Permanece também a liberdade sobre como queremos utilizar nosso arbítrio. Os mesmos aviões que levam pessoas pelo mundo encurtando distâncias e salvando vidas são utilizados em guerras para atirar bombas. Conta-se que santos-Dumont ficou muito mal e depressivo ao ver sua criação sendo utilizada para fins bélicos. Foi pouco depois de ver aviões atacando o Campo de Marte em São Paulo durante a Revolução Constitucionalista de 1932 que o aviador cometeu suicídio.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Liberdade e Responsabilidade

Os cristãos creem num Deus criador na origem de todas as coisas. Quais são as implicações desse fundamento para as nossas vidas? Em Gênesis lemos que Deus criou tudo com ordem e de modo maravilhoso. Todas as coisas cooperando para favorecer a vida. Os seres humanos receberam responsabilidades especiais. É como se Deus nos tivesse feito co-criadores. Temos a possibilidade de desenvolver todo o potencial da boa criação de Deus. Podemos pegar o barro e fazer panelas para cozer os alimentos. Podemos utilizar a madeira para construir casas que nos abrigam contra o frio. Descobrimos a pólvora, o fogo, a lei gravitacional, o DNA e etc... Tudo já estava lá, desde o início. Não fomos nós os criadores, apenas descobrimos. Imaginamos algo novo e, a partir das coisas criadas, trazemos à existência novas realidades. E, foi assim que Deus planejou. Ele nos colocou no mundo para que pudéssemos desfrutar dele de modo zeloso e responsável.

 Existem alguns equívocos na interpretação bíblica e que precisamos corrigir. Assim como se criou o mito de que o fruto proibido era uma maça, outras questões se popularizaram como se estivessem na Bíblia sem nunca constar no Livro Sagrado. Uma delas é que o trabalho é uma consequência do pecado de Adão e Eva. Esta interpretação equivocada está relacionada geralmente a outro erro que associa o pecado original com relação sexual. Estes dois equívocos acabam gerando uma ideia errada sobre trabalho e sexualidade que se perpetua até hoje. Muitos cristãos têm dificuldades com o tema da sexualidade e encaram o trabalho como castigo ou mal necessário.

No mundo existem apenas duas categorias existentes: o Criador e o criado. Os seres humanos estão na categoria de criaturas. Logo, a nossa relação com o Criador é de adoração. Quando nos recusamos a reconhecer a soberania do Deus criador, inevitavelmente elegemos outra coisa para adorar. E, consequentemente, esta outra coisa será algo da categoria das criaturas (da criação). E, a isto a Bíblia chama de idolatria. Adorar qualquer coisa que não o Criador é adorar algo menor do que ele e, menor também do que o próprio ser humano, uma vez que o ídolo será apenas uma projeção do ímpeto religioso da pessoa. Aqui nós chegamos ao ponto crucial. Só existe um Deus criador e mantenedor de tudo. Ele é soberano, sábio e regente. Abrir mão disso é declarar independência e abraçar a pretensão de que se pode recriar a realidade de acordo com os próprios interesses.

As coisas que nós consideramos maldade, injustiça, sofrimento, dor e etc. no mundo, nada mais são do que as consequências dessa busca por autonomia. Sem Deus acabamos errando o alvo. Jogamos fora aquele que projetou todas as coisas e que conhece melhor do que nós como as coisas realmente são. Por isso, os frutos da desobediência, mais do que um castigo caprichoso de Deus, nada mais é do que a consequência do uso equivocado da liberdade que recebemos.

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