Como cristãos, sabemos que Deus é o criador de todas as coisas e que, por isso, podemos avaliar todas as coisas e reconhecer a verdade ali onde ela estiver. No caso das ideologias, todas elas, por partirem de algum fundamento isolado da criação de Deus, podem refletir alguma razão ou verdade.
A tradição cristã costuma revelar três formas distintas de relação com a cultura: 1) Contra a cultura; 2) Amigo da cultura; 3) Crítico à cultura.
O autor e cineasta Brian Godawa[1] chama a postura contrária a cultura de “anorexia cultural”, aquela postura de considerar tudo que não é “gospel” ou “evangélico” de mundano, logo, a pessoa não vê nenhum filme, não ouve nenhuma música, nada que seja “do mundo”. Com isso, não sabe aproveitar as coisas boas da vida, não se diverte, pois tudo o que é “do mundo” deve ser evitado. Isola-se num gueto.
Por outro lado, há o “glutão cultural” que é como Godawa chama o amigo da cultura. É aquele que cai de cabeça, não quer nem saber. Desliga todo e qualquer tipo de senso crítico. Vai consumindo música, filmes, espetáculos, tudo sem o mínimo discernimento. Ele é do tipo que quando alguém questiona, logo responde, “é só por lazer”, ou, “você leva tudo a sério demais”. São pessoas que ignoram que os artefatos culturais não gozam de neutralidade, que não servem apenas para entreter, mas, transmitem uma mensagem que, no final das contas, tem o objetivo de influenciar você.
Ambas as posturas são problemáticas. Como cristãos, somos chamados a examinar todas as coisas e reter o que é bom[2]. A relação que se espera de um cristão com a cultura a sua volta não é de simplesmente sair consumindo tudo acriticamente e, nem tampouco, evitar tudo ou até mesmo condenar todas as coisas como se fossem pecaminosas somente por não serem produção vinda de cristãos. Este é um princípio que deveria ser aplicado também ao lidarmos com as ideologias políticas.
Muitas pessoas cristãs acreditam que sua fé nada tem a ver com política. Devemos superar tal equívoco, pois, a postura contra a cultura reflete o falso pressuposto de que os reinos deste mundo pertencem a satanás[3]. Com isso, a tendência é o isolamento e a incapacidade de interagir e reconhecer que possa existir algo bom na cultura e nas ideologias e que, por isso, merecem reconhecimento e apoio.
Por outro lado, há o risco de um alinhamento político feito de maneira inadvertida. Essa tentativa de combinar a fé cristã com alguma ideologia sem uma análise crítica pode gerar sérios problemas e levar, até mesmo, a verdadeiras tiranias. Não deveríamos tomar as ideologias como se fossem simplesmente discursos neutros, algo que simplesmente se pode tomar sob o argumento de que “o que vale é a intenção”.
Uma primeira questão e que é chave para os cristãos que desejam nutrir uma correta relação com a cultura consiste em identificar as raízes religiosas das ideologias. Em outras palavras, é necessário identificar a cosmovisão por trás da cultura e das ideologias. Trata-se do que o filósofo David Koyzis chama de raízes espirituais das ideologias[4]. Somente ao atentarmos para isso seremos capazes de perceber que há uma verdadeira incompatibilidade entre os pressupostos religiosos das ideologias e os fundamentos do cristianismo bíblico.
Quando pensamos em ideologias políticas nos lembramos logo de governos, partidos políticos e sistemas jurídicos. Há, no entanto, uma diferença entre ideologias como o liberalismo e o socialismo, para as instituições como o governo e o sistema jurídico. Tal diferença consiste em dizer que tais instituições podem ser utilizadas para bem ou para mal, dependendo de qual direção a ideologia por trás daqueles que administram estas instituições desejam imprimir. Um socialista irá forçar o governo e criar uma proposta partidária diferente de alguém identificado com o liberalismo, por exemplo. A ideologia, assim, acaba sendo um meio para se alcançar determinado fim. Ao adotar inadvertidamente uma ideologia como meio para fins justificáveis, por mais nobres que estes fins pareçam à causa cristã, o que há, de fato, é idolatria.

Como cristãos, enfim, reconhecemos que só há um absoluto e este é Deus. Todas as coisas foram por ele criadas e são, portanto, relativas. Não há nada que tomemos desta criação para promover como princípio absoluto que não irá chocar-se com a verdade bíblico cristã, pois constituir-se-á num ídolo concorrendo com o verdadeiro e único Deus.
A política é uma atividade humana. Cada ser humano, na perspectiva de uma cosmovisão cristã, é uma criatura de Deus e que vive no mundo criado por Deus. Sabemos disso porque a Bíblia o revela. Sabemos, ainda, que vivemos num mundo caído, afetado pelo pecado. Porém, Deus não nos deixa a mercê de nossa própria sorte. Ele vem, em Cristo Jesus, para redimir a humanidade. E, não só a humanidade, mas, todas as coisas[5]. Exatamente por isso os cristãos deveriam ser aqueles que mais se importam com este mundo criado por Deus. Isso implica em reconhecer que a cultura e a política também interessam a Deus e carecem de redenção.
Quando falamos que Deus é o criador de todas as coisas, a coerência nos leva a admitir também que existe uma ordem nesta criação. E, Deus permanece fiel a esta ordem com que ele criou as coisas. E, nós, os seres humanos, naturalmente seremos mais plenos e realizados se nos submetermos aos preceitos de Deus. A lei de Deus, portanto, não é imposta de forma arbitrária. Esta é uma interpretação que, no entanto, encontra resistência inclusive entre muitas pessoas que se confessam cristãs. O problema é que ao ignorar que Deus cria o mundo com ordem e normatividade perde-se todo e qualquer referencial. Ignora-se, por exemplo, que a função dos governantes é promover a justiça. Sim, entendemos que a promoção da justiça é um dever de cada ser humano a partir daquilo que o próprio Deus espera de nós. Como uma sociedade irá se organizar para buscar essa justiça é outro capítulo. Os meios para isso Deus não instituiu, pois esta é nossa responsabilidade. A promoção da justiça, no entanto, é uma ordem normativa da criação. Como a buscaremos fica sob a responsabilidade da criatividade e da liberdade humana. Cada contexto e realidade exigirá uma abordagem própria. Isso reconhecendo que, inclusive, há restrições à própria liberdade nesta ordem da criação.
Ignorar uma ordem normativa a partir da criação de Deus implicaria em considerar que toda e qualquer decisão humana se pauta sobre mera escolha ou preferência pessoal. Afinal de contas, o que sobraria quando não se pode reivindicar mais nenhum fundamento transcendental? Há quem argumente que restaria a vontade do mais forte, um poder soberano como uma construção social, um contrato, enfim.
Resta, ainda, uma pergunta honesta a ser enfrentada: se todos pecaram, como podemos ter acesso ao conhecimento que nos revela a correta ordem da criação de Deus? Como ter acesso e discernir o que é realmente fruto da boa vontade de Deus? A revelação geral de Deus nos permite dizer que em todas as épocas e em todos os lugares existe certa capacidade humana de reconhecer determinadas normas. Sem ignorar a realidade do pecado que nos confunde e, até mesmo cega, é fato que ao observarmos a cultura em diferentes lugares do mundo seremos capazes de notar certa tendência pela vida, pela justiça, pela cortesia, pelo discernimento entre o bem e o mal. Como tal revelação geral é ainda insuficiente, Deus faz uso também de uma revelação especial em Cristo Jesus.
Se a realidade está baseada nesta cosmovisão baseada na tríade criação-queda-redenção, logo perceberemos que as ideologias procuram oferecer a sua própria versão da realidade. Explicam a origem, os problemas e eventuais soluções a partir de outros pressupostos. Uma visão de mundo que parte do princípio de que tudo não passa de uma massa cósmica aleatória sobre a qual os seres humanos simplesmente impõem a sua vontade é bem diferente do que compreender que o mundo é uma boa e ordenada criação de um Deus de amor que nos colocou aqui com responsabilidades. Assim, cada ideologia reflete uma cosmovisão particular que está baseada em algum aspecto da criação, constituindo-se, assim, numa visão reducionista que não é capaz de dar conta da realidade como um todo.
O desafio consiste em buscar por uma abordagem social que seja biblicamente cristã e que, portanto, não seja idólatra. Se Deus é o único soberano, então, nenhum indivíduo na terra é soberano. A tradição tem o seu valor, mas, é marcada pela realidade do pecado. A comunidade humana é importante, mas, não digna de lealdade irrestrita. Governos podem ajudar a instaurar equidade econômica, mas, são limitados e não devemos depositar sobre ele as esperanças por resolverem todos os problemas. O fato é que a realidade apresenta a todos nós uma rica diversidade com que precisamos aprender a lidar por uma perspectiva cristã. Os condicionamentos geográficos, históricos, econômicos e políticos a que os seres humanos estão submetidos faz com que haja uma verdadeira pluralidade cultural no mundo. Cabe a um governo sob princípios cristãos reconhecer e proteger tal diversidade e, jamais impor apenas uma única noção de cultura. Tal postura confronta diretamente as ideologias que preferem impor seu credo baseado numa visão uniforme da realidade e que, por isso, procura moldar tudo a sua própria imagem. Como seres caídos, marcados pelo pecado, deveríamos nos conscientizar de que toda a nossa compreensão das coisas é parcial, logo, tomar a nossa verdade como se fosse toda a verdade obviamente resultará em problemas. Deus é uma unidade que cria um mundo complexo. Nós não temos condições de apreender toda a complexidade desta realidade.
Esta complexa realidade é composta por uma multiplicidade de esferas sociais ou comunidades diferentes em que os seres humanos vivem e exercem responsabilidades distintas. Em tal realidade somente Deus é soberano e absoluto. Qualquer tentativa de promover algo dentro desta realidade relativa à condição de fundamento configura idolatria. E, todo ídolo costuma exigir seus sacrifícios para que seus objetivos sejam atendidos. O problema com as ideologias é que quando elas reduzem seu sentido de ser a uma parte da criação, acabam negligenciando todo o restante e, assim, numa perspectiva reducionista, sua leitura da realidade acaba negligenciando outros aspectos desta realidade.
Concluindo, uma ideologia acaba por se identificar como idolatria na medida em que ignora a criação de Deus e apega-se a um fragmento desta criação, identificando neste fragmento o fundamento que confere sentido e razão para a leitura de toda a realidade mais ampla. Uma ideologia, portanto, apesar de conter verdade, pois baseia-se em aspectos da realidade, é incapaz de cumprir o que promete, afinal, reflete uma visão reduzida que nega as diferenças e sacrifica a diversidade do mundo criado em nome de uma unidade idólatra[6].
[1] GODAWA, Brian. Cinema e Fé Cristã: vendo filmes com sabedoria e discernimento. Viçosa: Ultimado, 2004. p. 13-22.
[2] I Tessalonicenses 5. 21.
[3] Lucas 4. 6.
[4] KOYZIS, David. Visões e Ilusões Políticas: uma análise e crítica cristã das ideologias contemporâneas. São Paulo: Vida Nova, 2014. p. 225.
[5] Colossenses 1. 19-20.
[6] KOYZIS, 2014, p. 54.